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Toques na Alma



Livro: Toques na Alma
Lançamento oficial em 3.02.2018, em São Paulo, das 17 às 20 horas na Rua Clodomiro Amazonas, 1099 - Sala 56 - Itaim Bibi


Um livro com 37 exercícios e recursos sistêmicos para caminhos e processos de Transformação. Escrito por diversos profissionais  brasileiros que atuam no campo das Constelações Familiares em seus variados e abrangentes ramos de atuação. 

Exercícios, visualizações, dinâmicas, esquemas, estruturas para a prática individual em consultório ou para o trabalho com grupos em treinamentos, cursos e formações.


Autores: Alicio Gobis, Cidinha Clemente, Clara Sivek, Glaucia Paiva, Graciela Rozenthal, Heloisa Pessoa, Oswaldo Santucci, René Schubert, Solange Bertão.

Colaboração especial da facilitadora alemã Dra. Ursula Franke Bryson e do facilitador estadunidense Thomas Bryson.

Para maiores informações Editora Conexão Sistêmica - http://www.conexaosistemica.com.br

Relação Eu e o Outro

                                         ( Drawing Hands - M.C.Escher)

Recentemente um grupo de estudantes me procurou para um entrevista para um trabalho de faculdade. Baseado nas perguntas feitas foi feita uma reflexão que será transcrita aqui.

As perguntas feitas:
  • Quais os problemas existentes em pessoas que dependem de ter amigos para se sentirem forte, importante?
  • Como essa necessidade de afirmação de outros pode prejudicar essa pessoa?

  • O que é necessário para essa pessoa enxergar o seu valor, como ela pode mudar essa perspectiva?

A reflexão a partir destas:

Bem, as perguntas são amplas e abrem para um campo vasto. Espero poder auxiliar com minhas respostas. Trabalho como psicólogo clínico e psicanalista, sendo assim a teoria do vínculo e os relacionamentos são temáticas importantíssimas nas trocas humanas e estabelecimento e desenvolvimento de nossa personalidade. Posso dizer que a grande maioria dos quadros que acompanho em consultório trazem perguntas inerentes ao relacionar-se, a autoestima e segurança para relacionar-se, as conquistas na família e meio social por meio das trocas e relacionamentos, as possibilidades de prosperidade e felicidade alcançadas pelas habilidades de troca e negociação 

Seguem minhas reflexões:

Bem seguimos às perguntas, pela forma como foram colocadas, deixando claro que são respostas mais generalistas visto que as perguntas são de forma geral - nunca podemos esquecer que as pessoas respondem a partir de uma perspectiva singular à cada situação. E, na psicanálise, sempre analisamos e avaliamos a partir de cada caso singular. Mas as generalizações são necessárias para se ter uma ideia didática das dinâmicas e padrões comuns à nossa sociedade.

Pessoas que tem a "necessidade" de terem amigos ou pessoas à sua volta para sentirem-se fortes ou importantes apontam para certa dependência emocional. Precisam destas trocas para sentirem-se bem e pertencentes ao grupo. Talvez a forma como foram criadas em casa levou-as a pensar que precisem ter o outro à sua disposição ou à sua volta para sentirem-se bem e completos. Talvez necessitem do olhar e feedback do outro pois temem olhar para si com seus próprios olhos...em suas dificuldades, fraquezas, falhas.

Existe outro fator mais sutil operando neste sentido. Todos nós buscamos pertencer ao grupo. Inicialmente nosso lugar de pertencimento mais importante é em nossa família. E no meio social buscaremos este mesmo sentido de pertencimento, de fazer parte,  junto aos nossos amigos, colegas, colaboradores. Possivelmente, no meio social, replicaremos padrões e dinâmicas relacionais que aprendemos junto à nossa família de origem e cultura para nos adaptarmos ao meio social. Por vezes isto será aceito pelo meio, outras vezes será rejeitado. A possibilidade de rejeição, recusa, exclusão é um grande temor para as pessoas de forma geral - faz com que se sintam inseguras, preteridas, inferiores e fracas. Exatamente por isto que questões como bullying, preconceito e racismo são tão relevantes e importantes de serem refletidas e debatidas - estas questões traumatizam e re-traumatizam as pessoas.

As pessoas usarão de diversas estratégias para ter assegurado seu lugar de pertencimento. Por vezes estas estratégias podem ser lesivas para àqueles que estão à sua volta. Talvez a pessoa use de arrogância e prepotência para sentir-se no controle e no poder da situação. E, muitas vezes, não percebe o mal que causa àqueles atingidos por sua postura. Esta pessoa segue um padrão que acredita ser o certo para pertencer e se sobre sair, mas por vezes não mede as consequências e efeitos em um plano maior.

Todos vão buscar ter um lugar no meio social. Pertencer à cultura é fundamental, é uma necessidade básica. Nos traz conforto, segurança e bem estar. Quais estratégias utilizarei para pertencer ao meu meio social, ao meio acadêmico, ao meio profissional?
Qual flexibilidade disponho para encontrar recursos e meios de pertencer?

Quanto mais rígida e inflexível for a estratégia, a maneira de pertencer da pessoa à sociedade, mais choque e conflito esta terá com o meio externo. Se ela tem a ideia que ela precisa "sempre" estar em evidência e ter os melhores lugares e as melhores oportunidades, poderá agir de maneira agressiva, soberba, violenta, displicente se não conseguir alcançar este lugar. Ou poderá inferiorizar-se, deprimir e acreditar que não tem a possibilidade de vencer neste lugar, na vida. A ideia fixa, ou crença única enrijecem a pessoa e diminuem suas possibilidades de adaptação, causando dificuldades nos relacionamentos e na forma de encarar a vida.

Muitas vezes uma pessoa que usa de uma estratégia preconceituosa, ofensiva ou agressiva/abusiva para sobrepor outra, causa a esta um grande mal estar e sofrimento. Ou uma pessoa que acredita que precisa sempre ceder à demanda do outro, aos pedidos do outro, pode acabar se rebaixando e ignorando suas próprias vontades e importância em detrimento dos outros. Wolfgang Göethe, o poeta alemão costuma apontar que dois grandes defeitos humanos eram: crer-se mais importante do que se é e estimar-se menos do que se vale.

Aprendemos a nos relacionar e vincular em nossa socialização primária - ou seja com nossos pais ou responsáveis pela nossa inicial educação e cuidados. Conta muito o meio cultural, o entorno, o momento histórico, a constituição e estrutura familiar, a quantidade de familiares que coabitavam e conviviam uns com os outros nos anos iniciais desta criança. Conta também o relacionamento que a mesma tinha com as figuras do pai, da mãe e a quantidade de irmãos e qualidade no relacionamento com estes. A criança aprenderá a se vincular, a trocar com estes pais e parentes. Terá um lugar e uma importância.  As questões que se colocam são várias: Como os pais passaram adiante à esta criança o que eles mesmos eram e tinham? Como a criança tomou destes pais o que estes podiam dar e oferecer? O Sistema Familiar tem um característica mais tradicional, rígida ou é mais aberto e flexível? Que flexibilidade a família tinha e tem com variações e diferenças? Como esta criança cresceu frente as diferentes formas de relacionamento? Esta criança aprendeu a viver com diferenças e a incluí-las com naturalidade, ou aprendeu a rejeitar o diferente e se defender contra o mesmo? Qual a resiliência e capacidade de adaptação do sistema familiar desta criança e por consequência, dela mesma? Quando adulta, como esta criança lidou com o que recebeu de seu sistema familiar e as diferenças mostradas pela realidade externa? Como ela lida hoje com o descaso, ignorância, indiferença, raiva e sentimentos negativos das pessoas à sua volta? Como ela se vincula com os outros? Há equilíbrio nas relações de troca a sua volta, ou ela toma mais do que dá, ou dá mais do que toma?

Perguntas sempre são importantes para a pessoa se aperceber de si mesma e do meio que a circunda. De suas responsabilidades frente às relações e as consequências de suas escolhas e decisões. E, claro, para trabalhar a flexibilização de padrões, dinâmicas, crenças e alcançar melhores resultados com animo e criatividade.

Espero ter podido, neste breve e pontual texto, ter passado algumas referências do que foi perguntado.


Referências utilizadas para esta reflexão: Sigmund Freud / Enrique Pichon Riviere / Donald Woods Winnicott / Ivan Boszormenyi Nagy / Bert Hellinger 

                               (Reptiles - M.C. Escher)

Terapia utilizando o brinquedo LEGO


Muito interessante os recentes artigos divulgados na mídia falando do uso do brinquedo de montar e construir, o LEGO, como ferramenta terapêutica.

Um pouco do histórico do LEGO: “O sistema LEGO é um brinquedo cujo conceito se baseia em partes que se encaixam permitindo muitas combinações. Criado pelo dinamarquês Ole Kirk Kristiansen, é fabricado em escala industrial em plástico feito desde 1934, popularizando-se em todo o mundo desde então. É muito famoso e as crianças do mundo todo brincam. Hoje em dia existem várias séries. Em fevereiro de 2015, foi considerada a marca mais poderosa do mundo, de acordo com estudo realizado pela empresa de consultoria Brand Finance.” (Wikipedia)

Trago este tema para cá pois o utilizo em meu consultório principalmente no psicodiagnóstico infantil e na ludoterapia. Tanto o LEGO como o PLAYMOBIL, considero ambos fantásticos representantes lúdicos da realidade adulta humana. Como psicoterapeuta que atua com crianças disponho em meu consultório de uma brinquedoteca com diversos jogos e brinquedos. Poderoso aliados para auxiliar a criança a fazer a transição do mundo e imaginário infantil para o mundo e realidade adulta. Aprender, por meio do brincar, regras, limites, tanto de si como do outro. Desenvolver, por meio da linguagem lúdica, o raciocínio lógico, criatividade, abstração, entre outros. Mas o LEGO conta ao seu favor com muitas qualidades e possibilidades como brinquedo. Por meio da junção de peça geométricas multicoloridas pode-se construir deste um pote, um muro, um carro, um avião, uma torre, uma cidade inteira, uma cena de luta, uma cena de guerra e dominação, um cena de encontro e conciliação, uma cena romântica ou de aventura...depende da vontade, do objetivo, da habilidade e criatividade para com este brinquedo.

Vários aspectos ao meu ver contam a favor deste brinquedo: a estética e forma que tem e pode tomar; o colorido de suas peças; as infinitas possibilidade de construção, junção e criação; personagens com diversas expressões faciais e corporais; construção de cenas em 3D; diversos personagens do mundo infantil, da TV, dos jogos, do cinemas, dos quadrinhos, dos livros; a personificação da fantasia; o uso da criatividade e lógica; paciência e tolerância à frustração; cooperação e troca; expressão e comunicação; identificação e elaboração lúdica; construção e desconstrução; habilidades que se desenvolvem a medida que se tem contato com o brinquedo e o brincar; significação, ressignificação e descarga emocional; e muitos outros.

O pediatra e psicanalista Donald Woods Winnicott, um dos representantes da psicoterapia voltada para infância, ressaltou a importância do brincar e da brincadeira para o desenvolvimento infantil. É por meio do lúdico que muitas vezes a criança vai elaborar a realidade externa capturada e vivenciada, que será então externada à sua maneira pela fantasia, descarga motora e emocional do e no brincar.

“É no brincar, e somente no brincar, que o indivíduo, criança ou adulto, pode ser criativo e utilizar sua personalidade integral: e é somente sendo criativo que o indivíduo descobre o eu (self)” Winnicott

Percebo a importância deste brincar e deste brinquedo em quadros clínicos diversos em consultório mas, como expressado por muitos profissionais em uma série de estudos e pesquisas, o Lego pode ser muito pontual no atendimento de crianças com espectro autista. E realmente, este brinquedo se mostra um diferencial no estabelecimento de vinculo e troca com crianças que apresentam tal quadro clínico.

Foram selecionados alguns artigos que serão expostos aqui que abordam esta interessante e importante ferramenta clinica: Lego Terapia



No blog UNIMED foram publicadas as seguintes informações:

Estudos educacionais e médicos no Reino Unido e nos EUA constataram que grupos que usaram Legos como recurso ajudaram pacientes a desenvolver e reforçar as habilidades de jogo e habilidades sociais.Dentre os benefícios da “LEGOterapia” estão:
  •          Comunicação
  •          Atenção
  •         Concentração
  •          Partilha e troca
  •         Resolução de problemas compartilhada


Construir prédios com peças de Lego é uma experiência multisensorial, de forma que os projetos de construção podem ser adaptados às necessidades específicas de qualquer pessoa, tais como àquelas com cegueira, surdez, deficiência de mobilidade, autismo ou TDAH (Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade).

O modelo para a maioria dos programas de Terapia Lego consiste em:

Definir as regras básicas: os participantes sugerem e acordam regras simples e que todos entendam. O grupo concorda e trabalha em um projeto que não é muito fácil e também não é muito difícil. As regras são postados como um lembrete.
Funções atribuídas: cada participante recebe um papel, e os papéis são alternados com os outros membros do grupo durante a tarefa. Dentre as funções, temos:
  •       Engenheiro – supervisiona o projeto e garante que ele é seguido
  •       Construtor – coloca os tijolos juntos
  •     Fornecedor – mantém o controle da quantidade, do tipo e da cor dos tijolos que são necessários e repassa os tijolos para o construtor
  •     Facilitador do grupo – garante que a equipe está trabalhando em conjunto e comunicar



No site A Mente é Maravilhosa temos a seguinte descrição: “O LEGO não deixa de ser uma marca comercial. No entanto, esse tipo de jogo de construção é muito comum nas lojas de brinquedos. Por isso é uma ferramenta muito acessível para empresas e psicólogos que encontram neles benefícios excelentes. Um ponto importante dos benefícios psicológicos do LEGO é o seu uso como ferramenta de trabalho no mundo do coaching empresarial. Por se tratar de uma dinâmica baseada na representação de ideias, a construção livre se mostra muito eficiente, pois produz grandes informações. Além disso, o Método LEGO Serious Play foi patenteado, pois oferece grandes benefícios na resolução de conflitos já que proporciona uma grande quantidade de informação. Também está sendo utilizado como elemento de coaching ou treinamento da inteligência emocional. Ao treinar a inteligência emocional com uma construção livre, é possível se conectar com um conhecimento implícito que foi se assentando no decorrer da vida do indivíduo. Dessa maneira, ao complementar cenários criativos, o usuário constrói, observa e projeta, pensa sobre sua criação, encontrando informações para solucionar conflitos, por exemplo. Por ser uma técnica reveladora, promove a criatividade e dá asas à imaginação, à expressão, à capacidade de conquistar objetivos e até mesmo de projeção de desafios, além de incentivar a empatia!”



Segue agora matéria completa escrita por Amy Packham para o The Huff Post UK:

Brincar com Lego pode ser mais do que uma maneira de prevenir o tédio; para algumas crianças, tem o poder de melhorar suas habilidades sociais e desenvolver a autoestima.

A terapia Lego ou "Legoterapia" é um programa de desenvolvimento social para crianças com transtorno do espectro do autismo ou dificuldades relacionadas à comunicação.

O filho de Debi Richmond, Adam, de 10 anos, diagnosticado com autismo, melhorou sua consciência social através de sessões com Lego.

“Ele utiliza [o brinquedo] como uma ferramenta calmante”, Richmond disse ao The Huffington Post UK. “Permitiu que Adam fosse ele mesmo e compartilhasse um interesse comum com os outros.”

Inicialmente desenvolvida por Dan LeGoff, neuropsicólogo clínico nos Estados Unidos, a prática agora está disponível para terapeutas de todo o mundo.

As pesquisas sobre os benefícios da Lego terapia foram conduzidas por LeGoff e Gina Gomez de la Cuesta.

A dupla lançou seu primeiro livro em 2014, para divulgar os benefícios que a terapia poderia exercer sobre crianças com autismo.

Gomez de la Cuesta estudou a abordagem durante seu doutorado no Centro de Pesquisa de Autismo, onde teve aulas com LeGoff. Ela foi a primeira pessoa a criar grupos de terapia Lego no Reino Unido.

“Crianças com autismo têm dificuldades com a interação social, comunicação social e imaginação social”, disse Gomez de la Cuesta ao HuffPost UK.

“Por outro lado, elas podem ter habilidades visuais-espaciais muito boas, atenção aos detalhes e apreciar a resolução sistemática de problemas.”

“Você pode entender o Lego como um brinquedo previsível e bastante sistemático, que segue determinadas regras ou restrições — embora, claro, dentro dessas restrições de como os blocos se encaixam, você possa ser criativo tanto quanto queira.”

Então, o que acontece durante a terapia Lego?

As crianças se inscrevem em um curso de oito semanas, que normalmente consiste em uma sessão de duas horas semanais.

As sessões começam com as crianças cumprimentando umas às outras e depois trabalhando em grupos de três para montar os modelos.

Gomez de la Cuesta explicou que as crianças recebem diferentes responsabilidades durante a sessão.

“Há uma grande ênfase nas crianças tomando decisões sobre o que será montado, qual será o papel de cada um e por quanto tempo”, acrescentou.

Um criança será o “engenheiro” que descreve as instruções, outra será o “fornecedor” que busca os blocos, e a terceira criança no grupo é a “construtora” que junta as peças.
“As crianças se revezam para desempenhar esses diferentes papéis”, explica Gomez de la Cuesta.

“Ao dividir a tarefa de construir (algo que as crianças com autismo gostam de fazer), as crianças precisam trabalhar em conjunto, se comunicar, resolver problemas comuns e praticar muitas habilidades sociais diferentes (coisas que são muito difíceis para crianças com autismo).

“O adulto treinado que lidera a atividade trabalha com as crianças para facilitar suas interações sociais. Seu trabalho é destacar os problemas sociais para as crianças quando estes surgem e treiná-las a encontrar suas próprias soluções para dificuldades sociais.”

Gomez de la Cuesta disse que a terapia Lego é enormemente benéfica, por ajudar as crianças a aprender como construir relacionamentos com os outros.

“Oportunidades naturais para o desenvolvimento da competência social são facilitadas pelo terapeuta”, acrescentou.

“O Lego também tem uma verdadeira moeda social com outras crianças. Por isso, as crianças podem falar com outras fora dos grupos e ganhar mais experiência em interações sociais.”

Uma das principais razões para esta terapia ser tão eficaz é que brincar com Lego é familiar para a maioria das crianças, explicou a pesquisadora.

Crianças que possam apresentar resistência em frequentar um grupo típico de habilidades sociais porque o consideram difícil e estressante podem se sentir muito mais confiantes e relaxadas indo a um grupo Lego.

“Fundamentalmente, as crianças estão aprendendo em um ambiente naturalista — ou seja, estão aprendendo à medida que brincam umas com as outras — e as dificuldades sociais que surgem no grupo são abordadas e discutidas à medida que acontecem”, Gomez de la Cuesta acrescentou.

A pesquisadora disse que as crianças com autismo são frequentemente muito boas em montar modelos Lego, no sentido de que a terapia pode melhorar sua autoestima.

“Elas recebem um elogio genuíno por algo que fizeram, ao contrário de quando estão na escola, onde podem ter um desempenho abaixo do esperado e serem repreendidas frequentemente”, disse.

O fato de que as crianças nos grupos também estão conhecendo outras semelhantes a elas lhes dá a sensação de “identidade compartilhada”.

Isso é algo que Richmond acredita ter aumentado a confiança de seu filho Adam.
“Decidimos ir em frente com a terapia Lego devido ao fato de que Adam tem uma fascinação e interesse no Lego”, explicou.

“Queríamos ajudar com suas habilidades sociais e que ele conhecesse outras crianças no espectro, talvez fazer um amigo. Adam frequentou oito sessões de terapia em um curso todos os sábados e realmente se divertiu desde o início”, disse a mãe.

“Durante os workshops, Adam e os grupos de meninos e meninas trabalharam muito em equipe, compartilhando, se revezando e aprendendo, através de um jogo muito criativo, como se comunicar e usar habilidades sociais em um nível diferente”, acrescentou.

“Os grupos montaram cenários incríveis e conseguimos ver compaixão e compromisso pela terapia Lego todas as semanas. Frequentar esses grupos permitiu que ele fosse ele mesmo e compartilhasse um interesse comum com os outros. Ao fazer isso, ele compartilhava e se revezava apropriadamente, usando suas habilidades de comunicação e socializando em um ambiente criativo.”

Richmond disse que o resultado de trabalhar em grupo e completar uma tarefa foi uma grande conquista para Adam, de muitas maneiras, permitindo que ele aprendesse brincando e recebesse elogios sinceros por suas habilidades de construção.

“Adam experimenta emoções positivas e negativas em diferentes níveis quando está criando e brincando normalmente, mas com uma tarefa completada de um modelo Lego, ele é capaz de focar em suas conquistas de muitas maneiras”, acrescentou Richmond.

“A terapia Lego começou a beneficiá-lo em seu dia a dia. Ele sempre está pensando em sua próxima criação e, em casa, desmonta seu kit Lego e usa a imaginação para criar outra coisa melhor.”

Nicola Brims disse que seu filho Zachary, de 14 anos, que está no espectro autista, melhorou a autoconfiança ao frequentar os grupos.

Ele entrou em um curso de terapia Lego de oito semanas, com sessões semanais de duas horas.

“À medida que as semanas iam passando, Zac ficou mais disposto a falar no grupo”, disse Brims.

“Ele começou não querendo falar muito e, depois de algumas semanas, conseguia conversar muito mais com seu grupo e de forma eficaz. Fora do grupo, foi realmente muito valioso para a família que Zac tivesse um canal social, e que parecia deixá-lo geralmente mais feliz e sentindo-se bem em relação às suas conquistas.”

“Ele tem se mostrado entusiasmado com o Lego há anos, portanto parecia ser uma oportunidade ideal para que ele desenvolvesse certa autoconfiança e habilidades sociais usando uma atividade da qual gosta muito. Se o grupo não fosse apoiado na terapia Lego, não acredito que teria conseguido convencê-lo a frequentá-lo”, disse Brims.

Camilla Nguyen, que coordena grupos de terapia Lego para crianças em Camden, Londres, disse que as atividades também são eficazes para melhorar a saúde mental das crianças.
Também fã do Lego, ela ficou intrigada pela ideia de como o jogo poderia ajudar crianças com autismo e acabou indo estudar no Centro de Pesquisa de Autismo, com os professores Gina Gomez de la Cuesta e Simon Baron-Cohen.

Nguyen criou seu grupo de terapia Lego como parte de um serviço de bem-estar mental e emocional para crianças chamado CHUMS. Muitas das criança participantes enfrentavam dificuldades, como mau humor e ansiedade.

“Muitas crianças que frequentavam o grupo tinham sido socialmente excluídas por serem autistas”, disse Nguyen ao HuffPost UK. “Muitas delas se sentem muito diferentes das crianças com desenvolvimento típico quando frequentam escolas regulares, porque são isoladas.”

“O grupo Lego, no entanto, permitiu que as crianças e os jovens se sentissem parte de uma comunidade com autismo e fizessem novos amigos, ao mesmo tempo praticando algo que eles realmente gostavam — montando Lego e sendo criativos.”

Nguyen disse que os pais — e as próprias crianças — muitas vezes se aproximam para discutir o impacto positivo observado.

“Um dos adolescentes que frequentou o grupo veio até mim, já no último dia da sessão em grupo, e contou que havia conseguido um emprego na Sainsbury’s [rede de supermercados no Reino Unido]”, disse.

“Era um garoto que se descrevia com baixa autoestima e muito ansioso antes da sessão Lego. Ele sentiu que frequentar o grupo proporcionou a confiança extra necessária para conquistar o mundo. Foi um momento de orgulho, não apenas para ele, mas também para mim, porque senti que causei um impacto positivo na vida de um jovem”, afirmou Nguyen.
Gomez de la Cuesta disse que também ficou impressionada com o impacto positivo que a terapia Lego pode ter sobre a saúde mental de uma criança.

“Nos meus grupos originais para meu doutorado, descobri que, para algumas crianças, a terapia Lego foi o ‘momento da lâmpada’ para o indivíduo”, disse.

“Por exemplo, um menino progrediu [ao começar] a brincar no parquinho da escola com outras crianças, enquanto anteriormente ficava dentro [da escola] com a professora na hora do recreio.”

“Outra mãe disse que o grupo Lego foi o primeiro clube ou grupo onde seu filho não sentiu nenhum estresse ao participar, o que, para ela, foi impressionante.”

Gomez de la Cuesta disse que, embora a pesquisa sobre a técnica terapêutica ainda seja incipiente, ela acredita que o programa tenha potencial para ajudar muitas crianças que enfrentam dificuldades no meio social.

“Há um crescente interesse em usá-la para pessoas que possuem dificuldades sociais por outras razões (por exemplo: uma lesão cerebral ou ansiedade social).”

“A pesquisa até agora foi focada em crianças com autismo de alto funcionamento. A abordagem também pode ser adaptada para crianças com baixo funcionamento ou para crianças que se comunicam mais, e alguns talentosos terapeutas de linguagem e de fala estão trabalhando nisso neste momento,” afirma Gomez de la Cuesta.



Fontes Pesquisadas:

Como a “LEGO Terapia” pode ajudar crianças com deficiência - https://www.unimedvtrp.com.br/blog/como-a-lego-terapia-pode-ajudar-criancas-com-deficiencia/
Terapia Lego: Como crianças com autismo melhoram habilidades sociais brincando - http://www.huffpostbrasil.com/2016/06/13/terapia-lego-como-criancas-com-autismo-melhoram-habilidades-soc_a_21686956/
Você sabe quais são os benefícios psicológicos do LEGO? https://amenteemaravilhosa.com.br/beneficios-psicologicos-do-lego
Lego-based therapy information and training - https://www.bricks-for-autism.co.uk/
LEGO-Based Therapy: How Colourful Bricks Are Helping Kids With Autism Improve Their Social Skills - http://www.huffingtonpost.co.uk/entry/lego-based-therapy-children-with-autism-social-skills_uk_5721efb9e4b06bf544e15ddf

O Amor profundo pelos Pais







"Estamos todos ligados às nossas famílias por um amor muito profundo. Por este amor as crianças estão prontas a sacrificar tudo. Se soubéssemos isto, compreenderíamos as crianças. Elas até estão prontas a sacrificar as suas vidas se pensarem que vão ajudar os pais com isso.

E querem ser como os seus pais. Esta é a razão porque podemos observar que em certos sistemas sociais, digamos classes sociais, aqueles da classe mais baixa não a querem deixar, porque não ousam fazer melhor do que os seus pais.

Podemos ver que numa sociedade onde há oportunidades iguais para todos, aqueles da classe mais baixa, frequentemente não aproveitam as oportunidades por amor aos seus pais. Não ousam estar acima dos pais.

Só o farão com a concordância deles, por exemplo se disserem aos pais: 'Se fizer melhor que tu, provarei a todos como tu és bom.' Assim, por amor aos seus pais a criança pode fazer isto. Mas se alguém diz: 'Vou provar que sou melhor que tu.' irá falhar pouco tempo depois, porque a criança dentro dele não pode tolerar ser melhor que os pais."

Bert Hellinger

Linguagem e Psicanálise


Muito pontual e claro texto escrito pela psicanalista Elizabeth Brose para a edição de Agosto de 2017 da Revista Mente e Cérebro: A língua e suas salivas



"A psicanálise trabalha com o equívoco, com o intervalo entre uma palavra dita e a sua reedição; é possível evocarmos o que Lacan ensinou: entre um significante e outro, revela-se o sujeito de modo fugidio" 
Elizabeth Brose


"As línguas são comparáveis a tecidos, cujos fios o bicho-da-seda produz, ou às teias que as aranhas tecem de tanto salivar. A língua viva depende de seus falantes – que registram, escrevem. Falar, ler, escrever, escutar. Em “Uma rosa é uma rosa é uma rosa...”, a poeta Gertrude Stein nos direciona na leitura e releitura de uma palavra que, ao ser repetida, se altera. E na última pronúncia de “uma rosa”, mesmo que as palavras sejam lidas silenciosamente, aquela imagem acústica que criamos dentro de nós já vai se tornando carregada de algum outro sentido que não o primeiro, o original, digamos assim. Parecendo uma árvore carregada de laranjas. Se víssemos o detalhe, o zoom da primeira laranja, logo mais uma e mais uma... Por fim, em zoom out, nos seria revelada uma complexidade de frutas penduradas em galhos presos a um tronco comum: a laranjeira.  

Mais ou menos assim transmitimos por palavras o que vamos percebendo e as palavras nos fazem perceber. A psicanálise – principalmente na volta a Sigmund Freud empreendida por Jacques Lacan – trabalha com o equívoco, com o intervalo entre uma palavra dita e a sua reedi(c)ção. Seguindo os preceitos da linguística, talvez compreendamos melhor se evocarmos o que Lacan ensinou: entre um significante e outro, revela-se o sujeito de modo fugidio.

Traduzir um texto de Freud é uma operação que se realiza a partir da ideia do equívoco, da incompletude das línguas, da não equivalência entre elas. As traduções são fronteiras entre o (im)possível. Freud tanto narra quanto disserta. Narrações são marcadas pelo contar de ações via instâncias narrativas. Um narrador (ou mais de um) conta a um outro (narratário) uma sequência de ações. Narrar difere assim do teatro, porque interpõe entre o público e a ação essas instâncias transparentes que amaciam, tranquilizam o susto, a surpresa e o terror. As histórias do mundo da fantasia, do “era uma vez”, são contadas a crianças por alguém, um contador, no tempo verbal adequado do “era”, distanciando aquele que ouve daquele que age (a personagem).

Além disso, a voz orienta os percursos da imaginação. Assim, evita-se a maior emoção do palco, aquela que produz a catarse. Freud narra, por exemplo, o cumprimento dos obsessivos, o tirar o chapéu, e conclui com frases que são de tirar o chapéu mesmo. Essas abstrações costumam ser dissertadas. Dissertar é aquele jeito de escrever argumentando, que alguns leigos chamam de teorizar. Na dissertação, desenvolve-se uma série de pensamentos, que aprendemos na escola que devem ser de preferência concatenados, coerentes e coesos. Dominando a organização narrativa e a dissertativa e através desses modos de escrever, Freud vai apresentando ao leitor os lapsos dessas e nessas organizações e as relações entre linguagens distintas como a dos sonhos e a de seus relatos.     

A riqueza do Freud escritor também se dá no fato de tanto ser direto e claro nas palavras (mesmo nos neologismos) quanto de oferecer a sensação de montanha-russa ao escorregarmos por suas deliciosas frases quilométricas, repletas de vírgulas e novas orações. O leitor só sabe que pôs os pés no chão no ponto final. Nesse momento, o coração pulsa e a criança diz: de novo! E então relê, reedita a frase do começo, pois o verbo alemão pontua o fim da frase que se recomeça no sentido. Como se nada disso fosse suficiente, há ainda nos textos de Freud, frequentemente, a sensação de terceira dimensão temporal, tantos são os variados tempos dos verbos que apontam para um tempo modalizado, um possível, um que de fato aconteceu etc. 

Essa complexidade do texto original coloca o tradutor diante de alternativas e o resultado é, no melhor sentido, uma versão possível de uma série de versões. Aquela versão que ele, humano e limitado, encontra depois de passar pelo crivo da fórmula inexata: o que esse conceito que me fala de sensações táteis ou imagéticas em alemão pode ter querido dizer há cem anos e como ele foi dito em português por este e por aquele tradutor. E depois de substituir com cuidado uma palavrinha composta alemã por outra(s) tanta(s) pesquisadas nas memórias, em dicionários, carregados de palavras penduradas em seus verbetes... E então se lembra de um texto literário que surpreende com uma palavra em frase que se renova. Essas são algumas das tantas possibilidades que encantam o processo investigativo da tradução e que, também, acalmam a angústia do impossível: a tradução perfeita, ideal, das línguas que fazem UM. As línguas e linguagens não fazem uma unidade, uma completude. As línguas e seus lapsos, as brechas e os furos, buracos negros de significados e o sem sentido e o para além do senso... Assim, de equívoco em equívoco, desloca-se a palavra. Daí que as línguas não se encaixam, as línguas não se beijam. As línguas...

IDIOMAS E SONHOS

Se este texto fosse um vídeo na timeline do Facebook, o roteiro seria assim: dicionários apareceriam como caixas, onde todas as palavras se encontrariam e de onde elas sairiam com suas saias leves e dançantes e  lembrariam cobras encantadas rumo ao céu daquele cesto de palha do encantador de serpentes. Nessa dança formariam sintaxes, estruturas; o cipó onde, se fosse um sonho, os macaquinhos-prego se pendurariam. Cada macaco no seu galho. Cada macaco, uma palavra materna. Das nossas falas transcontinentais da língua portuguesa a suas escritas e ainda outras escritas em idiomas estranhos, essa caixa conteria o universo das palavras (das nossas falas transcontinentais da língua portuguesa a suas escritas e ainda outras escritas em idiomas estranhos). Repetidas vezes... E a cada vez uma frase nova ou seminova se ergueria no mercado medieval e mediador das línguas."   


Elizabeth Brose é psicanalista, pós-doutoranda em psicologia clínica no Instituto de Psicologia da USP. Atualmente traduz do alemão o texto de Freud Psicopatologia da vida cotidiana para a editora Autêntica.