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A Equoterapia e a Hiperatividade Infantil: Possibilidades terapêuticas





Introdução


Tendo em vista o aumento de comentários e exposição na mídia sobre os distúrbios que afetam a infância e, invariavelmente prejudicam a educação, achou-se interessante definir e discutir, num breve artigo, as forma mais comun de “agitação” que acomete nossas crianças atualmente e fazer uma ponte com a terapia complementar conhecida como Equoterapia.

Farei uso do referencial psiquiátrico para definir as crianças “agitadas”, isso porque é este que está presente na mídia, educação, saúde mental, enfim, em nossa cultura. Mas isso não quer dizer que não hajam outros importantes referenciais.

Falarei de diagnósticos aplicados pela psiquiatria que não devem ser usados de forma generalizada ou sem analisar cuidadosamente toda a historia de vida e contexto familiar, social, cultural no qual o paciente está inserido.

Lembrando que nunca podemos nos esquecer da influência da cultura contemporânea sobre todos nós (globalização, Internet, a “hipermodernidade” defendida pelo filósofo francês Gilles Lipovetsky, etc). A cultura na qual estamos inseridos incide sobre nós de forma visível e por outras vezes invisível. Traz consigo as conseqüências de um tempo, suas tendências, formas de expressão e posicionamento do homem frente à vida.

Posteriormente desenvolverei o uso e aplicações da chamada Equoterapia de forma geral e no caso de crianças.


Um pouco sobre a tal  “hiperatividade”


O diagnóstico de Hiperatividade ou transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH) como é conhecido em psiquiatria, é um distúrbio dos mais comuns na infância (apesar de ter grande incidência em adultos também) e com maior prevalência na idade escolar. Sua principal característica é desatenção, aliada a uma grande agitação psicomotora e impulsividade.

STACHUK(2005) explica que o TDHA é causado por uma alteração neurobiológica nas funções do lobo frontal do cérebro, região responsável pela inteligência, raciocínio, comportamento, memória, planejamento, tomada de decisões, julgamento e iniciativa. Nos portadores são menores a ativação dessa região e suas conexões com o restante do cérebro. A mesma autora  aponta que o transtorno continua após a infância em 60% dos casos se não obtiver tratamento adequado. As formas de tratamento tradicional são o uso de medicamentos psicotrópicos e psicoterapia (individual e orientação familiar).

Algumas breves perguntas e respostas relacionadas à hiperatividade:

O TDHA é muito freqüente?

SCHWARTZMAN(2005) afirma que 40 % dos casos encaminhados para clínicas e centros de orientação infantil acabam sendo diagnosticados com esse quadro e cerca de 20 % da população escolar também apresenta TDHA.

Como se percebe a hiperatividade de uma criança na escola?

-           Não ficam paradas na sala de aulas, “não param quietas”
-           Falam muito com os colegas, de forma acelerada e por vezes ininterruptamente
-           Interrompem de maneira imprópria professores e colegas
-           Iniciativas impulsivas, inconseqüentes
-           Tumultuam a classe com brincadeiras fora de hora
-           Apresentam desempenho abaixo do esperado
-           Dificuldade em concentrar-se para executar as tarefas pedidas em sala de aula

Fora estes, quais seriam os principais traços ou sintomas de uma criança supostamente hiperativa?

          Dificuldade em prestar atenção a detalhes ou errar por descuido em atividades escolares e profissionais
          Dificuldade em manter a atenção em uma tarefa
          Parecer não escutar quando lhe dirigem a palavra, “olhar no mundo da lua”
          Dificuldade em organizar e distribuir tarefas e atividades
          Evitação de tarefas mais complexas e que exijam esforço mental constante
          Perda de objetos
          Distrair-se facilmente com estímulos externos
          Esquecimento das atividades do dia
          Correr, pular, escalar em excesso – ou em momentos inadequados
          Falar em demasia
          Estar sempre “a mil por hora”
          Dificuldade em esperar sua vez ou aceitar ordens de superiores
          Responder precipitadamente antes de ouvir a pergunta
          Agir sem pensar

Segundo SCHWARTZMAN(2005), para se aplicar o diagnóstico de Déficit de Atenção (DDA) ou Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDHA), é importante que a criança possua uma série dos sintomas e sinais acima relacionados (e não uma única), que os mesmos ocorram antes dos 7 anos e com prevalência de sintomas por mais de 7 meses.

Uma ressalva: ao discutir sintomatologia e diagnóstico, atentar para não cristalizar ou pré-conceituar a criança nos mesmos – tal descuido é comum e muito prejudicial para o tratamento da dificuldade e para a comunicação Profissional-Paciente, Aluno-Educador, Criança-Adulto. Os diagnósticos e nomeação de sintomatologia são uma ferramenta dos profissionais de saúde para orientar e viabilizar um tratamento. Mas como toda ferramenta, pode viciar a percepção ou comprometer seu próprio mecanismo de funcionamento. É fundamental que sempre olhemos para a singularidade de cada caso – é nisto que encontraremos respostas frutíferas (não só para nós, mas principalmente para o paciente).

A hiperatividade, por suas características acaba causando sérias conseqüências como: prejuízo acadêmico ou profissional e dificuldade em lidar com ordens ou hierarquias de um local. Muitas crianças acabam tendo baixo desempenho escolar, dificuldades no relacionamento e baixa auto-estima.

O DSM-IV (1995) aponta que o TDAH não tratado ou acompanhado pode trazer comorbidades (distúrbios psiquiátricos associados) no futuro tais como: Depressão, transtorno de conduta (delinqüência), transtornos de ansiedade, abuso e/ou dependência de substancias químicas.

Apesar da psiquiatria apontar a TDAH como um distúrbio neurocomportamental, sabe-se que as condições sociais, familiares e mesmo alimentares influem muito em seu aparecimento e desenvolvimento.

Na cultura atual (da internet, dos laços e relacionamentos ‘virtuais’, da rapidez na comunicação, negócios e, da globalização) há constantes exigências de agilidade, imediatismo que agem diferentemente sobre todas as pessoas e trazem diversas conseqüências, entre estas, agitação psicomotora, tensão, o famoso ‘stress’, impulsividade, inquietação e outros “sintomas” do mundo contemporâneo.

Este ponto não pode ser negligenciado! O Psicanalista Jorge Forbes aponta que as pessoas ainda não aprenderam a lidar com a globalização e os seus índices; “Nós temos ainda uma grande resistência em aceitar aquilo que nos é diferente” – o conflito emocional-afetivo decorrente desta resistência pode ser percebido e analisado nestes fenômenos ‘sintomáticos’ sociais.


“Meu filho é agitado, o que fazer?”


Inicialmente é importante verificar o grau desta “agitação” e como esta está interferindo nas atividades diárias da criança. Caso a criança tenha muitos traços da sintomatologia descrita (num período de tempo superior à 7 meses e de forma intensiva), a ponto de prejudica-la em diversas áreas da vida diária é aconselhado que a família procure ajuda de profissionais da área de saúde tais como pediatra, neurologista, psiquiatra, psicanalista, psicólogo, psicopedagogo, entre outros.

Mas é muito importante prestar atenção em como e quando tais traços ou sintomas se fazem presentes. Muitas vezes a agitação é decorrente de um experiência ou momento de vida pelo qual a criança está passando. Retomo novamente a questão contemporânea, atualmente vemos crianças de 6 à 11 anos com uma agenda lotada de atividades, sem tempo para brincar ou devanear. Fazem aulas de inglês, balé, Karaté, reforço escolar, flauta, piano, academia.....uma infinidade de coisas – não que estas não sejam importantes, mas o excesso, pode vir a deixar esta criança ou desanimada e cansada ou elétrica, agitada demais.

O Psiquiatra infantil Franscisco B. Assumpção Jr. ao abordar a temática dos distúrbios de aprendizagem (dislexia, distúrbio de atenção e outros), coloca que a raiz da questão tanto pode estar nela própria quanto em seu ambiente, “antes de nos preocuparmos com exames e diagnósticos é precisos analisar os fatores externos. Afinal, podem estar contribuindo para os tropeços no desempenho escolar os problemas da família (separação de pais, falecimentos, brigas domésticas), na escola (método pedagógico ruim, má adaptação da criança ao modelo pedagógico adotado, faltas do professor, brigas com colegas), situações de stress constante ou casos de reação aguda ao stress, entre outros fatores” (in CAMPOS, 1998).

A presença e participação da família e/ou responsável pela criança/adolescente é fundamental para o tratamento da hiperatividade quando esta é diagnosticada ou verificada.

Alguns pontos serão apontados aqui para auxiliar educadores, pais e a própria criança em seu tratamento.

          É importante que os pais, educadores, responsáveis, sentem-se com a criança a sós e peçam sua opinião sobre qual o melhor método para seu aprendizado. Dar a chance deste expressar sua opinião sobre si mesmo e desenvolver certo senso crítico sobre suas ações. Geralmente surgem sugestões valiosas. É importante fazer a criança/adolescente ser participante ativo de seu próprio tratamento
          Lance mão de estratégia e recursos de ensino mais flexíveis até perceber o estilo de aprendizado do aluno. A inflexibilidade e rigidez eliciam intensificação na agitação psicomotora e desatenção (como se a criança não suportasse tal maneira de relacionar-se com o mundo).
          Desenvolva um método para auto-informação e monitoração. Ao final de cada semana, reserve alguns minutos para uma conversa com a criança/adolescente, a fim de saber como esta se saindo em sala de aula. Ouça sua opinião sobre progressos e dificuldades. É necessário que a criança seja agente ativo no processo de aprendizagem
          Sinalize, sempre que possível, a evolução ou sucesso.
          As regras devem ser breves e claras. Use uma linguagem adequada e acessível.
          Sempre que possível transforme as tarefas em jogos (isso será um fator de motivação).
          Estimule o aluno/criança a tomar nota dos pontos mais importante de cada conteúdo e do que pensa sobre o assunto, como uma síntese ou fichamento. Isso além de ajudar-lo a organizar-se desenvolverá raciocínio lógico e senso crítico.
          Elimine ou reduza tarefas, testes cronometrados – A pressão destas tarefas aumenta ainda mais a angustia da criança
          Avalie as tarefas executadas mais pela qualidade do que pela quantidade. O importante é que os conceitos estejam sendo aprendidos.

Em casos nos quais a hiperatividade é muito acentuada e prejudicial, são ministradas medicações visando “brecar, freiar” um pouco a agitação desta criança. Mas o ponto importante no tratamento é levar a criança a perceber seu estado de agitação e aprender a lidar com este. Aos poucos esta desenvolverá maneiras de deixar fluir este “excesso” sem que o mesmo seja-lhe prejudicial. Por isso o apoio da família, educadores e demais é fundamental – para a criança ficar à vontade para descobrir suas qualidades e limitações e poder criar a partir dos mesmos.

Quanto mais descontraído e flexível para a expressão e descoberta por parte da criança for o tratamento, melhores serão os resultados obtidos.


Equoterapia: um pouco sobre esta abordagem terapêutica complementar


Agora apresentarei uma pratica terapêutica complementar que pode auxiliar de forma significativa crianças “agitadas”.

A Equoterapia, conhecida e desenvolvida no exterior, vem sendo aos poucos, desenvolvida como método terapêutico e educacional no Brasil. De forma sintética a equoterapia seria um método que alcança resultados terapêuticos através do uso do cavalo ( tanto pelo animal em si como pela montaria e cavalgar neste).

Historicamente há registros de que Hipócrates (377 A. C.), o chamado pai da medicina, defendia a equitação como meio de reabilitação da saúde em geral. Posteriormente este tratamento tornou-se importante na recuperação física e psicológica de mutilados da 2ª Guerra Mundial. Em 1952, a dinamarquesa Liz Hartel conquistou a medalha de prata em adestramento nas Olimpíadas de Helsinki, superando as seqüelas da poliomielite que contraíra quando criança. A partir daí, surgiram os primeiros centros de equoterapia na Europa e Estados Unidos.

Equo terapia ( Equo: do latim aequus, relativo à Equus, ‘cavalo’/  Terapia: relativo à terapêutica, que é a parte da medicina que estuda e põe em prática os meios adequados para aliviar ou curar os doentes) é um método terapêutico e educacional que utiliza o cavalo dentro de uma abordagem interdisciplinar, nas áreas de saúde, educação e equitação, buscando o desenvolvimento biopsicossocial de pessoas portadoras de deficiência e/ou com necessidades especiais.Ela emprega o cavalo como agente promotor de ganhos físicos, psicológicos e educacionais (ANDE-Brasil,2005).

Segue uma relação das dificuldades, deficiências e doenças que podem ser auxiliadas por meio do uso da equoterapia segundo UZUN (2005): paralisia cerebral, acidente vascular encefálico; atraso no desenvolvimento neuropsicomotor; síndrome de down e outras síndromes; traumatismo crânio-encefálico; lesão medular; esclerose múltipla; disfunção na integração sensorial; dificuldades da aprendizagem ou linguagem; distúrbios do comportamento; hiperatividade; autismo; traumas; depressão; stress, etc.

Complementarmente a esses dados ALÍPIO (2005) aponta  que  comprometimentos sociais e emocionais, tais como: autismo, esquizofrenia, psicose; deficiência visual, deficiência auditiva, problemas escolares (distúrbio de atenção, percepção, linguagem, hiperatividade) e pessoas “saudáveis”, sem nenhuma deficiência física ou psicológica, podem ser auxiliados pela equoterapia.

Recorrendo novamente à autora UZUN (2005) a equoterapia traria os seguintes benefícios: adequação do tônus muscular; da coordenação motora; do controle de cabeça e tronco; adequação do equilíbrio; facilitação no processo de aprendizagem escolar; estimula a atenção e concentração; socialização; auto-confiança; trabalha com a ativação dos sistemas cárdio-respiratório e músculo-esquelético e atua no alívio do stress.

O movimento rítmico, preciso, tridimensional e rotacional do cavalo, que ao caminhar se desloca para frente e para trás, para os lados e para cima e para baixo, pode ser comparado com a ação da pelve humana no andar, permitindo a todo instante entradas sensoriais em forma de propriocepção profunda, estimulações vestibular, olfativa, visual e auditiva (ALÍPIO,2005).

Paralelamente, esta prática facilita a organização do esquema corporal assim como a constante estimulação sensório–perceptiva possibilita uma melhor orientação espaço-temporal e lateralidade. Desenvolve a sensibilidade física e psíquica, à medida em que exige a constante percepção e reação frente a diversos estímulos. Todos estes benefícios aliados à sensação de independência e prazer resultam em uma maior harmonia e equilíbrio físico-psíquico.

O cavalo é o instrumento terapêutico, utilizado com base nos benefícios de seu movimento natural "ao passo", movimento este resultante de reações tridimensionais (semelhante ao andar do ser humano). É ainda, um agente educativo e facilitador da integração física- psíquica e social do paciente.

De acordo com GUIMARÃES (1993), a marcha do cavalo possui três andaduras naturais: ao passo, o trote e o galope.  O trote e o galope são andaduras saltadas, com movimentos mais rápidos e bruscos e exigem do cavaleiro mais força e coordenação. Ao passo se caracteriza por uma andadura ritmada, cadenciada e em quatro tempos, ou seja, ouvem-se quatro batidas distintas e compassadas. Durante o passo, o cavalo transmite ao cavaleiro uma série de movimentos seqüenciais e simultâneos que resultam em deslocamento tridimensional do centro de gravidade:
          No plano transversal, durante o movimento de flexão da coluna do cavalo, o cavaleiro é impulsionado para cima e, quando ocorre a extensão retorna à posição inicial.
          No plano frontal, o movimento e produzido pelas ondulações horizontais da coluna do cavalo, que se estendem da nuca à cauda.
          No plano sagital, é produzido um movimento para frente e para trás, composto por perdas e retomadas de equilíbrio

Comparando os movimentos humanos executados em seu deslocamento (ao passo), podemos perceber que este é idêntico ao executado pelo cavalo, quando este também se desloca ao passo. É este movimento que gera os impulsos que acionam o sistema nervoso para produzir as respostas que vão dar continuidade ao movimento e permitir o deslocamento (ação neurofisiológica).

A interação do paciente com o cavalo, incluindo os primeiros contatos, o ato de montar e o manuseio final, desenvolve novas formas de socialização e autoconfiança.

Por meio da prática eqüestre, o praticante de equoterapia é levado a acompanhar os movimentos do cavalo. A fim de conservar o equilíbrio, movimenta sincronicamente tronco, braços, ombro, cabeça e o restante do corpo. Tais respostas melhoram o tônus do corpo de forma global, estimulando não apenas o funcionamento de ângulos articulares como o de músculos e circulação sangüínea. Ocorre ainda o aumento da produção de adrenalina, que por sua vez aumenta as taxas cardíacas e respiratórias, auxiliando no funcionamento do aparelho digestivo.

O atendimento equoterapico é planejado em função das necessidade e potencialidades do paciente, onde se incluem o estabelecimento dos objetivos a serem atingidos e conseqüente ênfase na área a ser desenvolvida. Os trabalhos equoterápicos são agrupados nos seguintes programas distintos:
-           hipoterapia (paciente vai montado juntamente com o fisioterapeuta ou outro profissional – a ênfase será para a postura do paciente sobre o cavalo e exercícios físicos específicos)
-           educação /reeducação (paciente monta sozinho com dois profissionais nas laterais auxiliando-o quanto ao equilíbrio – são realizados principalmente exercícios físicos e de fonação, fala, aprendizagem)
-           pré-esportivo ( paciente monta sozinho e conduz o cavalo, sendo acompanhado de perto pelos profissionais – neste estágio a ênfase maior é para a educação e socialização do paciente).

No estágio de hipoterapia, ao manusear o paciente sobre o cavalo, o terapeuta possibilita uma sensação de movimento normal, graduado e coordenado, além de promover estímulos proprioceptivos, importantes no desenvolvimento da orientação postural, e estímulos vestibulares, que influenciam diretamente no tono muscular  controle postural (PAIVA & Colaboradores, 2005).

As principais conquistas da equoterapia são o desenvolvimento da auto-confiança, segurança, disciplina, concentração e bem-estar. A prática eqüestre favorece ainda uma sadia sociabilidade, uma vez que integra o praticante, o cavalo, e os profissionais envolvidos.

Desta forma a equoterapia contribui de forma agradável para a aplicação de exercícios de coordenação motora, agilidade, flexibilidade, ritmo, concentração e lateralidade.

Atualmente tem-se no Brasil a Associação Nacional de Equoterapia (ANDE-Brasil - http://www.equoterapia.org.br/equoterapia.html), sediada no distrito federal, que por meio de cursos e palestras informa e instrumentaliza profissionais a atuar com a equoterapia. A ANDE indica como fundamentais para o tratamento da equoterapia os seguintes profissionais: fisioterapeuta, psicólogo e Instrutor de montagem. Mas esta abordagem terapêutica é ministrada geralmente por uma equipe interdisciplinar, ou seja, profissionais de diversas áreas da ciência trabalhando em conjunto (interagindo) pelo bem-estar, restabelecimento e melhoria do quadro clínico do paciente. Comumente encontramos também presentes na equipe de equoterapia: Médico (neurologista, psiquiatra), Fisioterapeuta, Psicólogo, Fonoaudiólogo, Assistente social, Terapeuta Ocupacional, Fisiatra, Educador Físico, Psicomotricista, Técnico de montaria, entre outros.


A equoterapia e a criança


Atuando em clínicas psiquiátricas com crianças de diversos diagnósticos clínicos (autismo, psicose, hipeatividade, depressão, entre outros) pude perceber que a atração pelo animal está naturalmente presente (refiro-me a todo tipo de animal, desde  cachorro à tartarugas, patos, coelhos, pássaros, cavalos, etc.). Por vezes apresentam uma inaugural insegurança, mas se livram dela rapidamente à medida que o adulto ou outra criança em quem tem certa confiança lhe incentive a aproximar-se e tocar no animal.

Por intermédio do contato com animal começam muitas vezes a falar, contar histórias, sorrir, brincar. O animal abre a possibilidade de trabalho com a criança pois torna-se logo um atrativo e diferencial no tratamento que está sendo proposto. Por vezes é pelo contato com animal que a criança fica mais descontraída para conversar e mais receptiva com as orientações ou questionamentos feitos pelo profissional que a está acompanhando. Tal fato pode ser averiguado nas crianças que são atendidas pela equoterapia.

            Pela atuação física e psíquica que a equoterapia alcança, na ativação e estimulação de diversas funções do corpo humano tais como a respiração, a sucção, a mastigação, a fonação, a fala, a articulação, a atenção, a memória, a cognição, a concentração, a auto-confiança e auto-imagem (ALÍPIO,2005) a criança sente-se estimulada a seguir e desenvolver o tratamento.

Em casos nos quais a criança é muito insegura, retraída, desconfiada ou mesmo desinteressada, o trabalho terapêutico por meio do animal torna-se uma importante ferramenta clínica. Um “quebra-gelo” fundamental para aproximar o profissional da criança e possibilitar as intervenções terapêuticas (sejam psicológicas, fonoaudiológicas, fisioterapêuticas, etc).

O cavalo funciona como ponto de sedução em relação à criança (e mesmo ao adulto) pela imponência  e poder transmitida pelo mesmo. É um animal com porte magnífico e, conquistar sua confiança, domá-lo, cavalgá-lo, direcioná-lo é uma experiência prazerosa e até mesmo transformadora para algumas pessoas.(SCHUBERT, 2005)

Ao cavalgar a criança precisa coordenar seus movimentos aos do cavalo e  se concentrar, prestar atenção no cavalo e no meio que a cerca. No cavalgar a equoterapia cria a todo momento uma instabilidade de movimento, permitindo que o paciente seja encorajado a desenvolver novas maneiras de coordenar uma resposta postural, fundamental no processo de aprendizagem, na realização de atividades funcionais.

Por sua ação neurofisiológica (pela andadura do cavalo) e desafios psíquicos (enfrentamento, concentração, coordenação, linguagem, etc) a equoterapia obtém respostas positivas com crianças “agitadas”, “desatentas”, “hiperativas” – desde que haja interesse pela prática no paciente, claro.

O Dr. Daniel Amem (2000) faz um comentário em seu livro sobre a importância do ambiente externo no tratamento de crianças ou adultos que tenham o déficit de atenção e hiperatividade: “Quando o chefe as estimula a fazer melhor de modo positivo, elas se tornam mais produtivas. Quando se é pai, professor ou supervisor de alguém com TDHA, funciona muito mais usar elogio e estímulo do que pressão. Pessoas com TDHA saem-se melhor em ambientes que sejam altamente interessantes ou estimulantes e relativamente tranqüilos”. Raramente a criança não sente-se atraída ou encantada pelo cavalo e pela possibilidade de nele montar.

Percebeu-se que o cavalo, mais até do que outros animais, facilita e aproxima o paciente do terapeuta - seja pela montaria em equoterapia, seja no trato com o animal. Tal aproximação, automaticamente, opera a favor do trabalho reabilitativo ou de inclusão que o terapeuta lança como objetivo de tratamento - tendo o cavalo como estratégia terapêutica para alcançar objetivos clínicos que, sem o mesmo poderiam não ser possíveis ou prolongar-se demais. Desta maneira tem-se no cavalo, um instrumento facilitador e potencializador para o tratamento de diversas dificuldades, distúrbios, patologias orgânicas e psíquicas. É uma terapia complementar que traz muitos benefícios e descobertas à criança e àqueles que acompanham seu processo.

Ainda assim, por ser uma prática relativamente recente no Brasil (apenas em 1997 a Sociedade Brasileira de Medicina Física e Reabilitacional e o Conselho Federal de Medicina reconheceram a Equoterapia como método terapêutico) necessita ser melhor fundamentada e explorada em suas aplicações e desenvolvimentos. Talvez com o avanço progressivo das neurociências possamos verificar e comprovar cientificamente os benefícios alcançados pela equoterapia e como estes operam. Por hora sabemos que é uma prática complementar que alcança bons resultados dependendo do caso no qual é aplicado.




Referência Bibliográfica:

ASSOCIAÇÃO NACIONAL DE EQUOTERAPIA (ANDE-Brasil) – extraído da home-page: http://www.equoterapia.org.br/ande.html, setembro, 2010.

ALÍPIO,T.S. – Equoterapia-método terapêutico complementar. Revista família Guanelliana, Ano 18, N º 47, Rio Grande do Sul, Fev.Mai. 2005

AMEM, D. G. – Transforme seu cérebro, transforme sua vida. Ed. Mercúrio, 2000

CAMPOS, R. – Por que aprender é tão difícil. Revista Viver Psicologia &Psiquiatria, Ano 6, N º 68, São Paulo,1998

DSM-IV  -  Manual Diagnostico e Estatístico de Transtornos Mentais, Artes Medicas, 1995

GUIMARÃES, F. L. – Hippoterapia: conceito e indicações. Temas sobre Desenvolvimento,  Edições Científicas Memnon, v.3, n.14, São Paulo, 1993

LIPOVETSKY, G. – Os Tempos Hipermodernos. Barcarolla Ed., 1ª Edição, São Paulo, 2004

PAIVA, A.R.F. & Colaboradores – Efeitos da Hippoterapia no desenvolvimento funcional de duas ciranças portadoras de sindrome de down. Temas sobre Desenvolvimento, Edições Científicas Memnon, v.13, n.78, São Paulo, 2005

SCHWARTZMAN, S. - "DDA - Distúrbio do Déficit de Atenção e sua influência na  aprendizagem".Apresentação oral, seminário apresentado no Campus Ibirapuera Uni-Fmu em 25 de agosto, São Paulo, 2005

STACHUK, M. – A mil por hora. (in) Revista da Folha, Ano 14, N º 682, São Paulo, de 14 de
     agosto de 2005

SCHUBERT, R. -  “A Equoterapia como alternativa terapêutica para crianças 'agitadas'”. Revista Equoterapia, ANDE BRASIL, N º 12, Dezembro 2005

UZUN, A.L. – Equoterapia: aplicação em distúrbios do equilíbrio. Ed. Vetor, 2005

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