A Guerra, o ato supremo de violência do humano contra si próprio, contra a sociedade, a cultura e principalmente, contra a vida!
Sigmund Freud sabia e por diversas vezes apontou em suas obras, que o Ser Humano é um Ser em Conflito. Seja conflito externo ou interno. Pulsão de vida e Pulsão de morte - ambos participam do movimento psíquico humano diariamente.
A repressão de nosso instinto assassino tornou-nos civilizados. Tornou a cultura possível. Mas ainda há momentos em que retornamos à este instinto...e por vezes ele se manifesta no Real.
Selecionou-se aqui dois textos publicados nas Obras Completas de Sigmund Freud - é a troca de cartas entre o físico Albert Einstein e Sigmund Freud. Estas cartas ficaram conhecidas sob o título: Por que a Guerra?
(Salvador Dali - A face da Guerra)
Prezado Professor Freud,
A proposta da Liga das Nações e de seu Instituto Internacional para
a Cooperação Intelectual, em Paris, de que eu convidasse uma pessoa, de
minha própria escolha, para um franco intercâmbio de pontos de vista
sobre algum problema que eu poderia selecionar, oferece-me excelente
oportunidade de conferenciar com o senhor a respeito de uma questão que,
da maneira como as coisas estão, parece ser o mais urgente de todos os
problemas que a civilização tem de enfrentar. Este é o problema: Existe
alguma forma de livrar a humanidade da ameaça de guerra? É do
conhecimento geral que, com o progresso da ciência de nossos dias, esse
tema adquiriu significação de assunto de vida ou morte para a
civilização, tal como a conhecemos; não obstante, apesar de todo o
empenho demonstrado, todas as tentativas de solucioná-lo terminaram em
lamentável fracasso.
Ademais, acredito que aqueles cuja atribuição é atacar o problema
de forma profissional e prática, estão apenas adquirindo crescente
consciência de sua impotência para abordá-lo, e agora possuem um vivo
desejo de conhecer os pontos de vistas de homens que, absorvidos na
busca da ciência, podem mirar os problemas do mundo na perspectiva que a
distância permite. Quanto a mim, o objetivo habitual de meu pensamento
não me permite uma compreensão interna das obscuras regiões da vontade e
do sentimento humano. Assim, na indagação ora proposta, posso fazer
pouco mais do que procurar esclarecer a questão em referência e,
preparando o terreno das soluções mais óbvias, possibilitar que o senhor
proporcione a elucidação do problema mediante o auxílio do seu profundo
conhecimento da vida instintiva do homem. Existem determinados
obstáculos psicológicos cuja existência um leigo em ciências mentais
pode obscuramente entrever, cujas inter-relações e filigranas ele,
contudo, é incompetente para compreender; estou convencido de que o
senhor será capaz de sugerir métodos educacionais situados mais ou menos
fora dos objetivos da política, os quais eliminarão esses obstáculos.
Como pessoa isenta de preconceitos nacionalistas, pessoalmente vejo
uma forma simples de abordar o aspecto superficial (isto é,
administrativo) do problema: a instituição, por meio de acordo
internacional, de um organismo legislativo e judiciário para arbitrar
todo conflito que surja entre nações. Cada nação submeter-se-ia à
obediência às ordens emanadas desse organismo legislativo, a recorrer às
suas decisões em todos os litígios, a aceitar irrestritamente suas
decisões e a pôr em prática todas as medidas que o tribunal considerasse
necessárias para a execução de seus decretos. Já de início, todavia,
defronto-me com uma dificuldade; um tribunal é uma instituição humana
que, em relação ao poder de que dispõe, é inadequada para fazer cumprir
seus veredictos, está muito sujeito a ver suas decisões anuladas por
pressões extrajudiciais. Este é um fato com que temos de contar; a lei e
o poder inevitavelmente andam de mãos dadas, e as decisões jurídicas se
aproximam mais da justiça ideal exigida pela comunidade (em cujo nome e
em cujos interesses esses veredictos são pronunciados), na medida em
que a comunidade tem efetivamente o poder de impor o respeito ao seu
ideal jurídico. Atualmente, porém, estamos longe de possuir qualquer
organização supranacional competente para emitir julgamentos de
autoridade incontestável e garantir absoluto acatamento à execução de
seus veredictos. Assim, sou levado ao meu primeiro princípio; a busca da
segurança internacional envolve a renúncia incondicional, por todas as
nações, em determinada medida, à sua liberdade de ação, ou seja, à sua
soberania, e é absolutamente evidente que nenhum outro caminho pode
conduzir a essa segurança.
O insucesso, malgrado sua evidente sinceridade, de todos os
esforços, durante a última década, no sentido de alcançar essa meta, não
deixa lugar à dúvida de que estão em jogo fatores psicológicos de peso
que paralisam tais esforços. Alguns desses fatores são mais fáceis de
detectar. O intenso desejo de poder, que caracteriza a classe governante
em cada nação, é hostil a qualquer limitação de sua soberania nacional.
Essa fome de poder político está acostumada a medrar nas atividades, de
um outro grupo, cujas aspirações são de caráter econômico, puramente
mercenário. Refiro-me especialmente a esse grupo reduzido, porém
decidido, existente em cada nação, composto de indivíduos que,
indiferentes às condições e aos controles sociais, consideram a guerra, a
fabricação e venda de armas simplesmente como uma oportunidade de
expandir seus interesses pessoais e ampliar a sua autoridade pessoal.
O reconhecimento desse fato, no entanto, é simplesmente o primeiro
passo para uma avaliação da situação atual. Logo surge uma outra
questão: como é possível a essa pequena súcia dobrar a vontade da
maioria, que se resigna a perder e a sofrer com uma situação de guerra, a
serviço da ambição de poucos? (Ao falar em maioria, não excluo os
soldados, de todas as graduações, que escolheram a guerra como
profissão, na crença de que estejam servindo à defesa dos mais altos
interesses de sua raça e de que o ataque seja, muitas vezes, o melhor
meio de defesa.) Parece que uma resposta óbvia a essa pergunta seria que
a minoria, a classe dominante atual, possui as escolas, a imprensa e,
geralmente, também a Igreja, sob seu poderio. Isto possibilita organizar
e dominar as emoções das massas e torná-las instrumento da mesma
minoria.
Ainda assim, nem sequer essa resposta proporciona uma solução
completa. Daí surge uma nova questão: como esses mecanismos conseguem
tão bem despertar nos homens um entusiasmo extremado, a ponto de estes
sacrificarem suas vidas? Pode haver apenas uma resposta. É porque o
homem encerra dentro de si um desejo de ódio e destruição. Em tempos
normais, essa paixão existe em estado latente, emerge apenas em
circunstâncias anormais; é, contudo, relativamente fácil despertá-la e
elevá-la à potência de psicose coletiva. Talvez aí esteja o ponto
crucial de todo o complexo de fatores que estamos considerando, um
enigma que só um especialista na ciência dos instintos humanos pode
resolver.
Com isso, chegamos à nossa última questão. É possível controlar a
evolução da mente do homem, de modo a torná-lo à prova das psicoses do
ódio e da destrutividade? Aqui não me estou referindo tão-somente às
chamadas massas incultas. A experiência prova que é, antes, a chamada
‘Intelligentzia’ a mais inclinada a ceder a essas desastrosas sugestões
coletivas, de vez que o intelectual não tem contato direto com o lado
rude da vida, mas a encontra em sua forma sintética mais fácil — na
página impressa.
Para concluir: Até aqui somente falei das guerras entre nações,
aquelas que se conhecem como conflitos internacionais. Estou, porém, bem
consciente de que o instinto agressivo opera sob outras formas e em
outras circunstâncias. (Penso nas guerras civis, por exemplo, devidas à
intolerância religiosa, em tempos precedentes, hoje em dia, contudo,
devidas a fatores sociais; ademais, também nas perseguições a minorias
raciais.) Foi deliberada a minha insistência naquilo que é a mais
típica, mais cruel e extravagante forma de conflito entre homem e homem,
pois aqui temos a melhor ocasião de descobrir maneiras e meios de
tornar impossíveis qualquer conflito armado.
Sei que nos escritos do senhor podemos encontrar respostas,
explícitas ou implícitas, a todos os aspectos desse problema urgente e
absorvente. Mas seria da maior utilidade para nós todos que o senhor
apresentasse o problema da paz mundial sob o enfoque das suas mais
recentes descobertas, pois uma tal apresentação bem poderia demarcar o
caminho para novos e frutíferos métodos de ação.
Muito cordialmente,
ALBERT EINSTEIN. Viena, setembro de 1932.
Prezado Professor Einstein,
Quando
soube que o senhor intencionava convidar-me para um intercâmbio de
pontos de vista sobre um assunto que lhe interessava e que parecia
merecer o interesse de outros além do senhor, aceitei prontamente.
Esperava que o senhor escolhesse um problema situado nas fronteiras
daquilo que é atualmente cognoscível, um problema em relação ao qual
cada um de nós, físico e psicólogo, pudesse ter o seu ângulo de
abordagem especial, e no qual pudéssemos nos encontrar, sobre o mesmo
terreno, embora partindo de direções diferentes. O senhor apanhou-me de
surpresa, no entanto, ao perguntar o que pode ser feito para proteger a
humanidade da maldição da guerra. Inicialmente me assustei com o
pensamento de minha — quase escrevi ‘nossa’ — incapacidade de lidar com o
que parecia ser um problema prático, um assunto para estadistas.
Depois, no entanto, percebi que o senhor havia proposto a questão, não
na condição de cientista da natureza e físico, mas como filantropo: o
senhor estava seguindo a sugestão da Liga das Nações, assim como
Fridtjof Nansen, o explorador polar, assumiu a tarefa de auxiliar as
vítimas famintas e sem teto da guerra mundial. Além do mais, considerei
que não me pediam para propor medidas práticas, mas sim apenas que eu
delimitasse o problema da evitação da guerra tal como ele se configura
aos olhos de um cientista da psicologia. Também nesse ponto, o senhor
disse quase tudo o que há a dizer sobre o assunto. Embora o senhor se
tenha antecipado a mim, ficarei satisfeito em seguir no seu rasto e me
contentarei com confirmar tudo o que o senhor disse, ampliando-o com o
melhor do meu conhecimento — ou das minhas conjecturas.
O senhor
começou com a relação entre o direito e o poder. Não se pode duvidar de
que seja este o ponto de partida correto de nossa investigação. Mas,
permita-me substituir a palavra ‘poder’ pela palavra mais nua e crua
violência’? Atualmente, direito e violência se nos afiguram como
antíteses. No entanto, é fácil mostrar que uma se desenvolveu da outra
e, se nos reportarmos às origens primeiras e examinarmos como essas
coisas se passaram, resolve-se o problema facilmente. Perdoe-me se,
nessas considerações que se seguem, eu trilhar chão familiar e comumente
aceito, como se isto fosse novidade; o fio de minhas argumentações o
exige.
É, pois, um
princípio geral que os conflitos de interesses entre os homens são
resolvidos pelo uso da violência. É isto o que se passa em todo o reino
animal, do qual o homem não tem motivo por que se excluir. No caso do
homem, sem dúvida ocorrem também conflitos de opinião que podem chegar a
atingir a mais raras nuanças da abstração e que parecem exigir alguma
outra técnica para sua solução. Esta é, contudo, uma complicação a mais.
No início, numa pequena horda humana, era a superioridade da força
muscular que decidia quem tinha a posse das coisas ou quem fazia
prevalecer sua vontade. A força muscular logo foi suplementada e
substituída pelo uso de instrumentos: o vencedor era aquele que tinha as
melhores armas ou aquele que tinha a maior habilidade no seu manejo. A
partir do momento em que as armas foram introduzidas, a superioridade
intelectual já começou a substituir a força muscular bruta; mas o
objetivo final da luta permanecia o mesmo — uma ou outra facção tinha de
ser compelida a abandonar suas pretensões ou suas objeções, por causa
do dano que lhe havia sido infligido e pelo desmantelamento de sua
força. Conseguia-se esse objetivo de modo mais completo se a violência
do vencedor eliminasse para sempre o adversário, ou seja, se o matasse.
Isto tinha duas vantagens: o vencido não podia restabelecer sua
oposição, e o seu destino dissuadiria outros de seguirem seu exemplo.
Ademais disso, matar um inimigo satisfazia uma inclinação instintual,
que mencionarei posteriormente. À intenção de matar opor-se-ia a
reflexão de que o inimigo podia ser utilizado na realização de serviços
úteis, se fosse deixado vivo e num estado de intimidação. Nesse caso, a
violência do vencedor contentava-se com subjugar, em vez de matar, o
vencido. Foi este o início da idéia de poupar a vida de um inimigo, mas a
partir daí o vencedor teve de contar com a oculta sede de vingança do
adversário vencido e sacrificou uma parte de sua própria segurança.
Esta foi,
por conseguinte, a situação inicial dos fatos: a dominação por parte de
qualquer um que tivesse poder maior — a dominação pela violência bruta
ou pela violência apoiada no intelecto. Como sabemos, esse regime foi
modificado no transcurso da evolução. Havia um caminho que se estendia
da violência ao direito ou à lei. Que caminho era este? Penso ter sido
apenas um: o caminho que levava ao reconhecimento do fato de que à força
superior de um único indivíduo, podia-se contrapor a união de diversos
indivíduos fracos. ‘L’union fait la force.’ A violência podia ser
derrotada pela união, e o poder daqueles que se uniam representava,
agora, a lei, em contraposição à violência do indivíduo só. Vemos,
assim, que a lei é a força de uma comunidade. Ainda é violência, pronta a
se voltar contra qualquer indivíduo que se lhe oponha; funciona pelos
mesmos métodos e persegue os mesmos objetivos. A única diferença real
reside no fato de que aquilo que prevalece não é mais a violência de um
indivíduo, mas a violência da comunidade. A fim de que a transição da
violência a esse novo direito ou justiça pudesse ser efetuada, contudo,
uma condição psicológica teve de ser preenchida. A união da maioria
devia ser estável e duradoura. Se apenas fosse posta em prática com o
propósito de combater um indivíduo isolado e dominante, e fosse
dissolvida depois da derrota deste, nada se teria realizado. A pessoa, a
seguir, que se julgasse superior em força, haveria de mais uma vez
tentar estabelecer o domínio através da violência, e o jogo se repetiria
ad infinitum. A comunidade deve manter-se permanentemente, deve
organizar-se, deve estabelecer regulamentos para antecipar-se ao risco
de rebelião e deve instituir autoridades para fazer com que esses
regulamentos — as leis — sejam respeitadas, e para superintender a
execução dos atos legais de violência. O reconhecimento de uma entidade
de interesses como estes levou ao surgimento de vínculos emocionais
entre os membros de um grupo de pessoas unidas — sentimentos comuns, que
são a verdadeira fonte de sua força.
Acredito
que, com isso, já tenhamos todos os elementos essenciais: a violência
suplantada pela transferência do poder a uma unidade maior, que se
mantém unida por laços emocionais entre os seus membros. O que resta
dizer não é senão uma ampliação e uma repetição desse fato.
A situação é
simples enquanto a comunidade consiste em apenas poucos indivíduos
igualmente fortes. As leis de uma tal associação irão determinar o grau
em que, se a segurança da vida comunal deve ser garantida, cada
indivíduo deve abrir mão de sua liberdade pessoal de utilizar a sua
força para fins violentos. Um estado de equilíbrio dessa espécie, porém,
só é concebível teoricamente. Na realidade, a situação complica-se pelo
fato de que, desde os seus primórdios, a comunidade abrange elementos
de força desigual — homens e mulheres, pais e filhos — e logo, como
conseqüência da guerra e da conquista, também passa a incluir vencedores
e vencidos, que se transformam em senhores e escravos. A justiça da
comunidade então passa a exprimir graus desiguais de poder nela
vigentes. As leis são feitas por e para os membros governantes e deixa
pouco espaço para os direitos daqueles que se encontram em estado de
sujeição. Dessa época em diante, existem na comunidade dois fatores em
atividade que são fonte de inquietação relativamente a assuntos da lei,
mas que tendem, ao mesmo tempo, a um maior crescimento da lei.
Primeiramente, são feitas, por certos detentores do poder, tentativas,
no sentido de se colocarem acima das proibições que se aplicam a todos —
isto é, procuram escapar do domínio pela lei para o domínio pela
violência. Em segundo lugar, os membros oprimidos do grupo fazem
constantes esforços para obter mais poder e ver reconhecidas na lei
algumas modificações efetuadas nesse sentido — isto é, fazem pressão
para passar da justiça desigual para a justiça igual para todos. Essa
segunda tendência torna-se especialmente importante se uma mudança real
de poder ocorre dentro da comunidade, como pode ocorrer em conseqüência
de diversos fatores históricos. Nesse caso, o direito pode gradualmente
adaptar-se à nova distribuição do poder; ou, como sucede com maior
freqüência, a classe dominante se recusa a admitir a mudança e a
rebelião e a guerra civil se seguem, com uma suspensão temporária da lei
e com novas tentativas de solução mediante a violência, terminando pelo
estabelecimento de um novo sistema de leis. Ainda há uma terceira fonte
da qual podem surgir modificações da lei, e que invariavelmente se
exprime por meios pacíficos: consiste na transformação cultural dos
membros da comunidade. Isto, porém, propriamente faz parte de uma outra
correlação e deve ser considerado posteriormente.
Vemos,
pois, que a solução violenta de conflitos de interesses não é evitada
sequer dentro de uma comunidade. As necessidades cotidianas e os
interesses comuns, inevitáveis ali onde pessoas vivem juntas num lugar,
tendem, contudo, a proporcionar a essas lutas uma conclusão rápida, e,
sob tais condições, existe uma crescente probabilidade de se encontrar
uma solução pacífica. Outrossim, um rápido olhar pela história da raça
humana revela uma série infindável de conflitos entre uma comunidade e
outra, ou diversas outras, entre unidades maiores e menores — entre
cidades, províncias, raças, nações, impérios —, que quase sempre se
formaram pela força das armas. Guerras dessa espécie terminam ou pelo
saque ou pelo completo aniquilamento e conquista de uma das partes. É
impossível estabelecer qualquer julgamento geral das guerras de
conquista. Algumas, como as empreendidas pelos mongóis e pelos turcos,
não trouxeram senão malefícios. Outras, pelo contrário, contribuíram
para a transformação da violência em lei, ao estabelecerem unidades
maiores, dentro das quais o uso da violência se tornou impossível e nas
quais um novo sistema de leis solucionou os conflitos. Desse modo, as
conquistas dos romanos deram aos países próximos ao Mediterrâneo a
inestimável pax romana, e a ambição dos reis franceses de ampliar os
seus domínios criou uma França pacificamente unida e florescente. Por
paradoxal que possa parecer, deve-se admitir que a guerra poderia ser um
meio nada inadequado de estabelecer o reino ansiosamente desejado de
paz ‘perene’, pois está em condições de criar as grandes unidades dentro
das quais um poderoso governo central torna impossíveis outras guerras.
Contudo, ela falha quanto a esse propósito, pois os resultados da
conquista são geralmente de curta duração: as unidades recentemente
criadas esfacelam-se novamente, no mais das vezes devido a uma falta de
coesão entre as partes que foram unidas pela violência. Ademais, até
hoje as unificações criadas pela conquista, embora de extensão
considerável, foram apenas parciais, e os conflitos entre elas
ensejaram, mais do que nunca, soluções violentas. O resultado de todos
esses esforços bélicos consistiu, assim, apenas em a raça humana haver
trocado as numerosas e realmente infindáveis guerras menores por guerras
em grande escala, que são raras, contudo muito mais destrutivas.
Se nos
voltamos para os nossos próprios tempos, chegamos a mesma conclusão a
que o senhor chegou por um caminho mais curto. As guerras somente serão
evitadas com certeza, se a humanidade se unir para estabelecer uma
autoridade central a que será conferido o direito de arbitrar todos os
conflitos de interesses. Nisto estão envolvidos claramente dois
requisitos distintos: criar uma instância suprema e dotá-la do
necessário poder. Uma sem a outra seria inútil. A Liga das Nações é
destinada a ser uma instância dessa espécie, mas a segunda condição não
foi preenchida: a Liga das Nações não possui poder próprio, e só pode
adquiri-lo se os membros da nova união, os diferentes estados, se
dispuserem a cedê-lo. E, no momento, parecem escassas as perspectivas
nesse sentido. A instituição da Liga das Nações seria totalmente
ininteligível se se ignorasse o fato de que houve uma tentativa
corajosa, como raramente (talvez jamais em tal escala) se fez antes. Ela
é uma tentativa de fundamentar a autoridade sobre um apelo a
determinadas atitudes idealistas da mente (isto é, a influência
coercitiva), que de outro modo se baseia na posse da força. Já vimos que uma comunidade se mantém unida por duas coisas: a força
coercitiva da violência e os vínculos emocionais (identificações é o
nome técnico) entre seus membros. Se estiver ausente um dos fatores, é
possível que a comunidade se mantenha ainda pelo outro fator. As idéias a
que se faz o apelo só podem, naturalmente, ter importância se
exprimirem afinidades importantes entre os membros, e pode-se perguntar
quanta força essas idéias podem exercer. A história nos ensina que, em
certa medida, elas foram eficazes. Por exemplo, a idéia do
pan-helenismo, o sentido de ser superior aos bárbaros de além-fronteiras
— idéia que foi expressa com tanto vigor no conselho anfictiônico, nos
oráculos e nos jogos —, foi forte a ponto de mitigar os costumes
guerreiros entre os gregos, embora, é claro, não suficientemente forte
para evitar dissensões bélicas entre as diferentes partes da nação
grega, ou mesmo para impedir uma cidade ou confederação de cidades de se
aliar com o inimigo persa, a fim de obter vantagem contra algum rival. A
identidade de sentimentos entre os cristãos, embora fosse poderosa, não
conseguiu, à época do Renascimento, impedir os Estados Cristãos, tanto
os grandes como os pequenos, de buscar o auxílio do sultão em suas
guerras de uns contra os outros. E atualmente não existe idéia alguma
que, espera-se, venha a exercer uma autoridade unificadora dessa
espécie. Na realidade, é por demais evidente que os ideais nacionais,
pelos quais as nações se regem nos dias de hoje, atuam em sentido
oposto. Algumas pessoas tendem a profetizar que não será possível pôr um
fim à guerra, enquanto a forma comunista de pensar não tenha encontrado
aceitação universal. Mas esse objetivo, em todo caso, está muito
remoto, atualmente, e talvez só pudesse ser alcançado após as mais
terríveis guerras civis. Assim sendo, presentemente, parece estar
condenada ao fracasso a tentativa de substituir a força real pela força
das idéias. Estaremos fazendo um cálculo errado se desprezarmos o fato
de que a lei, originalmente, era força bruta e que, mesmo hoje, não pode
prescindir do apoio da violência.
Passo
agora, a acrescentar algumas observações aos seus comentários. O senhor
expressa surpresa ante o fato de ser tão fácil inflamar nos homens o
entusiasmo pela guerra, e insere a suspeita, de que neles
exige em atividade alguma coisa — um instinto de ódio e de destruição —
que coopera com os esforços dos mercadores da guerra. Também nisto
apenas posso exprimir meu inteiro acordo. Acreditamos na existência de
um instinto dessa natureza, e durante os últimos anos temo-nos ocupado
realmente em estudar suas manifestações. Permita-me que me sirva dessa
oportunidade para apresentar-lhe uma parte da teoria dos instintos que,
depois de muitas tentativas hesitantes e muitas vacilações de opinião,
foi formulada pelos que trabalham na área da psicanálise?
De acordo
com nossa hipótese, os instintos humanos são de apenas dois tipos:
aqueles que tendem a preservar e a unir — que denominamos ‘eróticos’,
exatamente no mesmo sentido em que Platão usa a palavra ‘Eros’ em seu
Symposium, ou ‘sexuais’, com uma deliberada ampliação da concepção
popular de ‘sexualidade’ —; e aqueles que tendem a destruir e matar, os
quais agrupamos como instinto agressivo ou destrutivo. Como o senhor vê,
isto não é senão uma formulação teórica da universalmente conhecida
oposição entre amor e ódio, que talvez possa ter alguma relação básica
com a polaridade entre atração e repulsão, que desempenha um papel na
sua área de conhecimentos. Entretanto, não devemos ser demasiado
apressados em introduzir juízos éticos de bem e de mal. Nenhum desses
dois instintos é menos essencial do que o outro; os fenômenos da vida
surgem da ação confluente ou mutuamente contrária de ambos. Ora, é como
se um instinto de um tipo dificilmente pudesse operar isolado; está
sempre acompanhado — ou, como dizemos, amalgamado — por determinada
quantidade do outro lado, que modifica o seu objetivo, ou, em
determinados casos, possibilita a consecução desse objetivo. Assim, por
exemplo, o instinto de autopreservação certamente é de natureza erótica;
não obstante, deve ter à sua disposição a agressividade, para atingir
seu propósito. Dessa forma, também o instinto de amor, quando dirigido a
um objeto, necessita de alguma contribuição do instinto de domínio,
para que obtenha a posse desse objeto. A dificuldade de isolar as duas
espécies de instinto em suas manifestações reais, é, na verdade, o que
até agora nos impedia de reconhecê-los.
Se o senhor
quiser acompanhar-me um pouco mais, verá que as ações humanas estão
sujeitas a uma outra complicação de natureza diferente. Muito raramente
uma ação é obra de um impulso instintual único (que deve estar composto
de Eros e destrutividade). A fim de tornar possível uma ação, há que
haver, via de regra, uma combinação desses motivos compostos. Isto, há
muito tempo, havia sido percebido por um especialista na sua matéria, o
professor G. C. Lichtenberg, que ensinava física em Göttingen, durante o
nosso classicismo, embora, talvez, ele fosse ainda mais notável como
psicólogo do que como físico. Ele inventou uma ‘bússola de motivos’,
pois escreveu: ‘Os motivos que nos levam a fazer algo poderiam ser
dispostos à maneira da rosa-dos-ventos e receber nomes de uma forma
parecida: por exemplo, “pão — pão — fama” ou “fama — fama — pão”.’ De
forma que, quando os seres humanos são incitados à guerra, podem ter
toda uma gama de motivos para se deixarem levar — uns nobres, outros
vis, alguns francamente declarados, outros jamais mencionados. Não há
por que enumerá-los todos. Entre eles está certamente o desejo da
agressão e destruição: as incontáveis crueldades que encontramos na
história e em nossa vida de todos os dias atestam a sua existência e a
sua força. A satisfação desses impulsos destrutivos naturalmente é
facilitada por sua mistura com outros motivos de natureza erótica e
idealista. Quando lemos sobre as atrocidades do passado, amiúde é como
se os motivos idealistas servissem apenas de escusa para os desejos
destrutivos; e, às vezes — por exemplo, no caso das crueldades da
Inquisição — é como se os motivos idealistas tivessem assomado a um
primeiro plano na consciência, enquanto os destrutivos lhes emprestassem
um reforço inconsciente. Ambos podem ser verdadeiros.
Receio que
eu possa estar abusando do seu interesse, que, afinal, se volta para a
prevenção da guerra e não para nossas teorias. Gostaria, não obstante,
de deter-me um pouco mais em nosso instinto destrutivo, cuja
popularidade não é de modo algum igual à sua importância. Como
conseqüência de um pouco de especulação, pudemos supor que esse instinto
está em atividade em toda criatura viva e procura levá-la ao
aniquilamento, reduzir a vida à condição original de matéria inanimada.
Portanto, merece, com toda seriedade, ser denominado instinto de morte,
ao passo que os instintos eróticos representam o esforço de viver. O
instinto de morte torna-se instinto destrutivo quando, com o auxílio de
órgãos especiais, é dirigido para fora, para objetos. O organismo
preserva sua própria vida, por assim dizer, destruindo uma vida alheia.
Uma parte do instinto de morte, contudo, continua atuante dentro do
organismo, e temos procurado atribuir numerosos fenômenos normais e
patológicos a essa internalização do instinto de destruição. Foi-nos até
mesmo imputada a culpa pela heresia de atribuir a origem da consciência
a esse desvio da agressividade para dentro. O senhor perceberá que não é
absolutamente irrelevante se esse processo vai longe demais: é
positivamente insano. Por outro lado, se essas forças se voltam para a
destruição no mundo externo, o organismo se aliviará e o efeito deve ser
benéfico. Isto serviria de justificação biológica para todos os
impulsos condenáveis e perigosos contra os quais lutamos. Deve-se
admitir que eles se situam mais perto da Natureza do que a nossa
resistência, para a qual também é necessário encontrar uma explicação.
Talvez ao senhor possa parecer serem nossas teorias uma espécie de
mitologia e, no presente caso, mitologia nada agradável. Todas as
ciências, porém, não chegam, afinal, a uma espécie de mitologia como
esta? Não se pode dizer o mesmo, atualmente, a respeito da sua física?
Para nosso
propósito imediato, portanto, isto é tudo o que resulta daquilo que
ficou dito: de nada vale tentar eliminar as inclinações agressivas dos
homens. Segundo se nos conta, em determinadas regiões privilegiadas da
Terra, onde a natureza provê em abundância tudo o que é necessário ao
homem, existem povos cuja vida transcorre em meio à tranqüilidade, povos
que não conhecem nem a coerção nem a agressão. Dificilmente posso
acreditar nisso, e me agradaria saber mais a respeito de coisas tão
afortunadas. Também os bolchevistas esperam ser capazes de fazer a
agressividade humana desaparecer mediante a garantia de satisfação de
todas as necessidades materiais e o estabelecimento da igualdade, em
outros aspectos, entre todos os membros da comunidade. Isto, na minha
opinião, é uma ilusão. Eles próprios, hoje em dia, estão armados da
maneira mais cautelosa, e o método não menos importante que empregam
para manter juntos os seus adeptos é o ódio contra qualquer pessoa além
das suas fronteiras. Em todo caso, como o senhor mesmo observou, não há
maneira de eliminar totalmente os impulsos agressivos do homem; pode-se
tentar desviá-los num grau tal que não necessitem encontrar expressão na
guerra.
Nossa
teoria mitológica dos instintos facilita-nos encontrar a fórmula para
métodos indiretos de combater a guerra. Se o desejo de aderir à guerra é
um efeito do instinto destrutivo, a recomendação mais evidente será
contrapor-lhe o seu antagonista, Eros. Tudo o que favorece o
estreitamento dos vínculos emocionais entre os homens deve atuar contra a
guerra. Esses vínculos podem ser de dois tipos. Em primeiro lugar,
podem ser relações semelhantes àquelas relativas a um objeto amado,
embora não tenham uma finalidade sexual. A psicanálise não tem motivo
porque se envergonhar se nesse ponto fala de amor, pois a própria
religião emprega as mesmas palavras: ‘Ama a teu próximo como a ti
mesmo.’ Isto, todavia, é mais facilmente dito do que praticado. O
segundo vínculo emocional é o que utiliza a identificação. Tudo o que
leva os homens a compartilhar de interesses importantes produz essa
comunhão de sentimento, essas identificações. E a estrutura da sociedade
humana se baseia nelas, em grande escala.
Uma queixa
que o senhor formulou acerca do abuso de autoridade, leva-me
a uma outra sugestão para o combate indireto à propensão à guerra. Um
exemplo da desigualdade inata e irremovível dos homens é sua tendência a
se classificarem em dois tipos, o dos líderes e o dos seguidores. Esses
últimos constituem a vasta maioria; têm necessidade de uma autoridade
que tome decisões por eles e à qual, na sua maioria devotam uma
submissão ilimitada. Isto sugere que se deva dar mais atenção, do que
até hoje se tem dado, à educação da camada superior dos homens dotados
de mentalidade independente, não passível de intimidação e desejosa de
manter-se fiel à verdade, cuja preocupação seja a de dirigir as massas
dependentes. É desnecessário dizer que as usurpações cometidas pelo
poder executivo do Estado e a proibição estabelecida pela Igreja contra a
liberdade de pensamento não são nada favoráveis à formação de uma
classe desse tipo. A situação ideal, naturalmente, seria a comunidade
humana que tivesse subordinado sua vida instintual ao domínio da razão.
Nada mais poderia unir os homens de forma tão completa e firme, ainda
que entre eles não houvesse vínculos emocionais. No entanto, com toda a
probabilidade isto é uma expectativa utópica. Não há dúvida de que os
outros métodos indiretos de evitar a guerra são mais exeqüíveis, embora
não prometam êxito imediato. Vale lembrar aquela imagem inquietante do
moinho que mói tão devagar, que as pessoas podem morrer de fome antes de
ele poder fornecer sua farinha.
O
resultado, como o senhor vê, não é muito frutífero quando um teórico
desinteressado é chamado a opinar sobre um problema prático urgente. É
melhor a pessoa, em qualquer caso especial, dedicar-se a enfrentar o
perigo com todos os meios à mão. Eu gostaria, porém, de discutir mais
uma questão que o senhor não menciona em sua carta, a qual me interessa
em especial. Por que o senhor, eu e tantas outras pessoas nos revoltamos
tão violentamente contra a guerra? Por que não a aceitamos como mais
uma das muitas calamidades da vida? Afinal, parece ser coisa muito
natural, parece ter uma base biológica e ser dificilmente evitável na
prática. Não há motivo para se surpreender com o fato de eu levantar
essa questão. Para o propósito de uma investigação como esta,
poder-se-ia, talvez, permitir-se usar uma máscara de suposto alheamento.
A resposta à minha pergunta será a de que reagimos à guerra dessa
maneira, porque toda pessoa tem o direito à sua própria vida, porque a
guerra põe um término a vidas plenas de esperanças, porque conduz os
homens individualmente a situações humilhantes, porque os compele,
contra a sua vontade, a matar outros homens e porque destrói objetos
materiais preciosos, produzidos pelo trabalho da humanidade. Outras
razões mais poderiam ser apresentadas, como a de que, na sua forma
atual, a guerra já não é mais uma oportunidade de atingir os velhos
ideais de heroísmo, e a de que, devido ao aperfeiçoamento dos
instrumentos de destruição, uma guerra futura poderia envolver o
extermínio de um dos antagonistas ou, quem sabe, de ambos. Tudo isso é
verdadeiro, e tão incontestavelmente verdadeiro, que não se pode senão
sentir perplexidade ante o fato de a guerra ainda não ter sido
unanimemente repudiada. Sem dúvida, é possível o debate em torno de
alguns desses pontos. Pode-se indagar se uma comunidade não deveria ter o
direito de dispor da vida dos indivíduos; nem toda guerra é passível de
condenação em igual medida; de vez que existem países e nações que
estão preparados para a destruição impiedosa de outros, esses outros
devem ser armados para a guerra. Mas não me deterei em nenhum desses
aspectos; não constituem aquilo que o senhor deseja examinar comigo, e
tenho em mente algo diverso. Penso que a principal razão por que nos
rebelamos contra a guerra é que não podemos fazer outra coisa. Somos
pacifistas porque somos obrigados a sê-lo, por motivos orgânicos,
básicos. E sendo assim, temos dificuldade em encontrar argumentos que
justifiquem nossa atitude.
Sem dúvida,
isto exige alguma explicação. Creio que se trata do seguinte. Durante
períodos de tempo incalculáveis, a humanidade tem passado por um
processo de evolução cultural. (Sei que alguns preferem empregar o termo
‘civilização’). É a esse processo que devemos o melhor daquilo em que
nos tornamos, bem como uma boa parte daquilo de que padecemos. Embora
suas causas e seus começos sejam obscuros e incerto o seu resultado,
algumas de suas características são de fácil percepção. Talvez esse
processo esteja levando à extinção a raça humana, pois em mais de um
sentido ele prejudica a função sexual; povos incultos e camadas
atrasadas da população já se multiplicam mais rapidamente do que as
camadas superiormente instruídas. Talvez se possa comparar o processo à
domesticação de determinadas espécies animais, e ele se acompanha,
indubitavelmente, de modificações físicas; mas ainda não nos
familiarizamos com a idéia de que a evolução da civilização é um
processo orgânico dessa ordem. As modificações psíquicas que acompanham o
processo de civilização são notórias e inequívocas. Consistem num
progressivo deslocamento dos fins instintuais e numa limitação imposta
aos impulsos instintuais. Sensações que para os nossos ancestrais eram
agradáveis, tornaram-se indiferentes ou até mesmo intoleráveis para nós;
há motivos orgânicos para as modificações em nossos ideais éticos e
estéticos. Dentre as características psicológicas da civilização, duas
aparecem como as mais importantes: o fortalecimento do intelecto, que
está começando a governar a vida instintual, e a internalização dos
impulsos agressivos com todas as suas conseqüentes vantagens e perigos.
Ora, a guerra se constitui na mais óbvia oposição à atitude psíquica que
nos foi incutida pelo processo de civilização, e por esse motivo não
podemos evitar de nos rebelar contra ela; simplesmente não podemos mais
nos conformar com ela. Isto não é apenas um repúdio intelectual e
emocional; nós, os pacifistas, temos uma intolerância constitucional à
guerra, digamos, uma idiossincrasia exacerbada no mais alto grau.
Realmente, parece que o rebaixamento dos padrões estéticos na guerra
desempenha um papel dificilmente menor em nossa revolta do que as suas
crueldades.
E quanto
tempo teremos de esperar até que o restante da humanidade também se
torne pacifista? Não há como dizê-lo. Mas pode não ser utópico esperar
que esses dois fatores, a atitude cultural e o justificado medo das
conseqüências de uma guerra futura, venham a resultar, dentro de um
tempo previsível, em que se ponha um término à ameaça de guerra. Por
quais caminhos ou por que atalhos isto se realizará, não podemos
adivinhar. Mas uma coisa podemos dizer: tudo o que estimula o
crescimento da civilização trabalha simultaneamente contra a guerra.
Espero que o senhor me perdoe se o que eu disse o desapontou, e com a expressão de toda estima, subscrevo-me,
Cordialmente,
SIGMUND FREUD

Nenhum comentário:
Postar um comentário