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Quê futuro?

Em entrevista à revista ELLE Brasil, a psicanalista Ana Maria Stucchi Vannucchi, diretora científica da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, fala sobre um tema de extrema relevância: a impotência e angústia dos jovens em relação ao futuro.





Natureza em fúria, caos geopolítico, inteligência artificial ameaçando tomar empregos e dominar mentes: o que podemos fazer – ou não fazer – em um cenário desses?

Fevereiro de 2024. Uma guerra na Europa que já extrapola dois anos, outra, no Oriente Médio, com impacto mundial ainda incerto (fora todas que não estão nas principais manchetes do dia), ataques e contra-ataques no Mar Vermelho, aquecimento global com desdobramentos extremos – deslizamentos de terra, tufões, ondas violentas de calor, secas e inundações históricas –, e um grau de desigualdade social em crescimento constante nos países pobres. Tudo isso e mais um pouco na sequência de uma pandemia, cujas consequências reverberam na educação, na saúde mental, no mercado de trabalho e em outros setores da vida.

Que futuro esperar diante desse cenário sinistro, com perspectivas até de um não-futuro, com o processo de fim dos tempos na Terra em andamento? Para que estudar e investir numa carreira? Ou parar de comer carne se o mundo vai acabar de qualquer maneira?

“Não morreremos de velhice. Morreremos por causa das mudanças climáticas”,estampa um cartaz empunhado por uma jovem em reportagem do Washington Post intitulada “O fardo ambiental da geração Z”.

Toda a Terra reduzida a nada

A angústia com o futuro da vida na Terra já tem até nome: ecoansiedade, ou ansiedade climática. O assunto foi tema de um estudo publicado na revista The Lancet Planetary Health, que analisou o grau de ansiedade climática entre jovens de dez países, Brasil incluído. Entre as 10 mil pessoas de 16 a 25 anos ouvidas pelos pesquisadores, 75% consideram o porvir assustador e, para mais da metade (56%), a humanidade está “condenada”.

Mas será que há razão para essa visão apocalíptica, de fim do mundo? Cientistas atestam que sim: esses tempos sombrios são de altíssimo risco para a nossa espécie e para outras.”.

A obra é do antropoceno, um termo relacionado ao impacto das atividades do homem no meio ambiente, com efeito como as mudanças climáticas e danos irreversíveis causados pelo consumo excessivo de recursos naturais, vide os combustíveis fósseis, que estão até no centro da indústria da moda.

Por outro lado, é possível crer num “otimismo apocalíptico”, expressão usada pelo neurocientista Sidarta Ribeiro, fundador e professor do Instituto do Cérebro da Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Em seu livro Sonho manifesto (Companhia das Letras), de 2022, ele defende o retorno aos conhecimentos dos povos originários como uma solução para reverter a atual catástrofe ambiental e social. res”.

Sidarta destaca a esquisitice própria do humano, animal paradoxal, que é violento e também altruísta. O cuidado com o outro é exemplar quando se trata das pessoas do seu círculo íntimo. Para os demais, resta a competição. Protegemos os de dentro, combatemos os de fora. O caminhos e encontraem“ curar nossos piores instintos, nutrindo os melhores”. Ou seja, sanar as partes doentes, como os sistemas patriarcal e o racismo, e honrar as nossas antigas tradições de cuidado com os outros.

Desde a pré-história, explica Sidarta, nossos ancestrais desenvolveram uma sofisticada ética do cuidado, baseada nos valores da atenção, da responsabilidade, da competência, da confiança… “Nossa raiz biocultural é violenta, mas também é amorosa, generosa, capaz de esmerados cuidados parentais e maravilhosa sociabilidade.”

Sem tempo para fechar os olhos

Outro tema que tem gerado angústia e teorias de eliminação humana na Terra, tipo sci-fi, é o uso cada vez mais massivo e sem controle do mundo digital. Feito por humanos e tal qual os humanos, ele é igualmente paradoxal: traz fantásticas e indubitáveis contribuições para a humanidade se informar e se conectar, mas pode gerar efeitos altamente perturbadores.

A aceleração do tempo na tela, o ir e vir constante de imagens e informações oferecidas freneticamente, novas, em pílulas, é obstáculo para a contemplação, o pausar, o aprender, o narrar, refletir, decidir e, por fim, concluir.

“As imagens inquietas não falam ou contam, mas sim fazem barulho. Frente a essas imagens ʻameaçadoras’, não se pode fechar os olhos. O olho fechado é o signo visual da conclusão. Hoje, a percepção é incapaz da conclusão, pois ela zapeia pela rede digital sem fim”, escreve o filósofo e ensaísta sul-coreano Byung-Chul Han.

Em cinco ensaios curtos e poderosos, o autor do best-seller Sociedade do cansaço (Editora Vozes) faz uma análise da aceleração em que vivemos imbricados. O nome do livro, de leitura valiosa: Favor fechar os olhos: em busca de um outro tempo (Editora Vozes).

O tempo exigido pelos textos mais longos, complexos, profundos, realmente não sobrevive à correria desenfreada da era digital e seu inquieto filhote, a cultura do imediatismo. No Brasil, o segundo país onde as pessoas passam mais tempo na internet (nove horas e 30 minutos por dia), o texto mais longo lido por 66% dos alunos não passa de dez páginas.

Entre os demais sul-americanos da pesquisa, o Brasil lidera, com folga, o ranking de estudantes cuja última leitura do ano não ultrapassou uma página, segundo levantamento do Interdisciplinaridade e Evidências no Debate Educacional (Iede), em parceria com a plataforma Árvore e com base nos resultados de 2018 da prova do Pisa.

A habilidade de ler e interpretar não é uma graça dos deuses que cai do céu, mas o resultado de um circuito que os seres humanos começaram a criar no cérebro milhares de anos atrás, explica a neurocientista estadunidense Maryanne Wolf, autora de O cérebro no mundo digital – Os desafios da leitura na nossa era (Contexto).

O hábito digital da leitura rápida leva a pessoa a passar “por cima da argumentação, dos pontos mais sofisticados do texto, e receber menos da substância de pensamento que é importante para a análise crítica”, ressaltou Maryanne em entrevista à BBC News Brasil.

Perder a capacidade crítica, a capacidade de julgar, ponderar, decidir, pode até não implodir o mundo, ainda que seja duro pensar que talvez Trump ganhe novamente o botão bomba nuclear em ação, mas vamos ter uma vida mais empobrecida do ponto de vista existencial. Mais árida.

Os algoritmos, por meio de suas recomendações, decidem por nós sem percebermos. O experienciar vai para o ralo quando a nossa escolha é feita pela máquina. O ChatGPT redige um texto, faz um trabalho da faculdade, mas pode colaborar com o emburrecimento do humano e ter implicações nefastas no mercado de trabalho, com séries de plágios e carreiras sendo subjugadas – como o próprio jornalismo, vale ressaltar.

“Na verdade, existe um perigo existencial inerente ao uso da IA (inteligência artificial), mas esse risco é existencial no sentido filosófico e não apocalíptico”, escreve Nir Eisikovits, professor de filosofia e diretor do Centro de Ética Aplicada da UMass Boston, no site The Conversation. “A IA em sua forma atual pode alterar a maneira como as pessoas se veem. Pode degradar habilidades e experiências que as pessoas consideram essenciais para o ser humano.” te, cada

“A gente não sabe como vão ficar a mente humana e a capacidade de pensar no futuro”, afirma Ana Maria Stucchi Vannucchi, psicanalista e diretora científica da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo.

No entanto, ela alerta para o real perigo da terceirização da própria capacidade de pensar e decidir. “A tecnologia oferece um tipo de esperança milagrosa, um faz-tudo mágico, que acarreta a sensação de impotência. Já que a IA faz tudo, a internet faz tudo, eu não preciso fazer nada. Então vou ficando cada vez mais impotente, cada vez com menos condições de pensar, de sentir.” E pode ser que essa impotência venha disfarçada de um grande alívio, diz Ana Maria, e a pessoa se coloque no papel de quem não precisa ser sujeito no mundo.

No fundo, esse caminho funciona como uma defesa contra o sofrimento. “Sabe qual é o problema? Quando a gente não quer sofrer, a gente não pode ter prazer também. Se eu estiver anestesiado para a dor, eu também me anestesio para o prazer, para o prazer de existir. Estar vivo traz muita dor, mas também traz muita alegria.”

Ou seja, se negarmos a dor, aí mesmo é que estamos perdidos enquanto espécie. Em meio a tantas incertezas, fica mais uma dúvida: será que a atual e um tanto bizarra realidade não é uma oportunidade para enfim mudarmos o jeito de ser e de viver?     

Matéria publicada no site da revista ELLE Brasil, edição fevereiro de 2024.

Compartilhado do blog: https://www.sbpsp.org.br/blog/fim-do-mundo/ 




Online publication : Contemporary Violence

Publication in the Journal of Neurology and Psychology:

Contemporary Violence: Reflecting the Banalization in the Present Day





"I thought of approaching here in this text the contemporary violence linked to the tendency to justify it in mental illness or drugs. A vast and complex topic that I do not intend to clarify in such a short article, but for which I can brush up on some information and raise some questions. I will bring certain data about mental illness and drugs, but I will not focus on these, as I believe that the violence we are currently experiencing is a movement, effect, reverberation, social symptom and not just an isolated phenomenon of a certain "deviant" group."


Schubert, R. - Contemporary Violence: Reflecting the Banalization in the Present Day - Published Date: November 01, 2022 -  Journal of MAR Neurology and Psychology, Volume 5 Issue 5, United Kingdom - https://www.medicalandresearch.com/

Roda de conversa sobre emoções, relações e empatia

 


Recentemente, tive a oportunidade de conversar e refletir juntamente com o(a)s jovens estudantes do Colégio Imperatriz Leopoldina, dos 6ºs, 7ºs, 8ºs e 9 ºs anos do Ensino Fundamental e com alguns pais e responsáveis, a partir do convite feito pela direção e acompanhamento da coordenação deste colégio para retomar os encontros chamados de “Rodas de Conversa”.

 

Por conta da pandemia e do afastamento presencial das atividades escolares, acadêmicas, profissionais e sociais, o trabalho de escuta e expressão possibilitado pelas “Rodas de Conversa” havia sido temporariamente suspenso, e neste momento, por conta das questões que surgiam na escola, de conflitos, agressividade verbal, bullying, entre outros, a retomada das “Rodas de Conversa” mostrava-se importante. O intuito neste momento era abordar as emoções e falar um pouco sobre comunicação, relacionamento e empatia.

 

Deixando claro aqui, que de maneira geral, o retorno presencial às aulas foi um desafio nacional e, relatos tanto em escolas da rede pública, como privadas apontam para um reaprender e replanejar a estar em sala de aula, com colegas, professores, coordenadores. Tivemos muitas perdas com a pandemia, tanto físicas, emocionais, educacionais, pessoais, familiares, profissionais, sociais, relacionais...e tais ainda estão sendo processadas, elaboradas ou, talvez, vazadas, exageradas, manifestadas inadequadamente, descontroladas, nos corpos e mentes infanto-juvenis. Precisam de um espaço de expressão, de escuta, de acolhimento, para serem contornadas, orientadas, ressignificadas, elaboradas...no tempo, forma e medidas, coletivas e singulares de suas apresentações.

 

Iniciávamos a roda de conversa com a frase de Antoine de Saint-Exupéry: “Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas”, como forma de refletir como estávamos cativando um ao outro. Em casa, na escola, no clube, nos eventos...fazíamos isto de forma positiva ou negativa? Criávamos vínculos positivos ou negativos? Tínhamos consciência da marca e impressão, positiva ou negativa, que deixávamos em nosso(a)s colegas? Sabíamos que, provavelmente, continuaríamos a nos relacionar com tais colegas por mais 2, 3, 4, 5 anos escolares, dentro do CIL e voltaríamos a nos encontrar em outros ambientes, eventos sociais, na faculdade, na vida profissional e social, no futuro? Qual responsabilidade tenho na forma como trato e sou tratado por meus colegas e semelhantes?

 

E neste momento também introduzia algumas noções básicas da neuropsicologia em relação ao funcionamento de nosso cérebro, dos hemisférios cerebrais, um lado mais racional, outro mais emocional. O equilíbrio e desequilíbrio, descompensação que certas situações poderiam causar. O estresse, a perturbação, as emoções que tomam conta do corpo, e muitas vezes, de forma impulsiva, nos fazem agir de maneira exagerada, inadequada, socialmente negativa. A boa notícia é que podemos reparar situações e buscar alternativas para lidar melhor com dificuldades e conflitos.

 

Para aprofundar a temática, também foi indicado o filme Divertida Mente (2015), animação com direção e roteiro de Pete Docter - Pixar e Disney.

 

A maioria dos alunos que participaram desta roda de conversa conhecia ao filme “Divertida mente” e o livro “O pequeno Príncipe”. Isto já facilitou nossas interações, exemplos e identificação por parte do(a)s jovens.

 

Sabemos já há algum tempo da importância da apresentação, diferenciação, ensino, desenvolvimento das habilidades socioemocionais, assim como a sua adequada expressão e externalização emocional em crianças e adolescentes. Quando uso o tempo “adequada” aqui, me refiro àquilo que está em voga em nosso meio social – somos seres sociais e, como tais seguimos normas, regras, adaptações, propostas e praticadas no e pelo meio social. Por isto, esta temática está sendo abordada em escolas e instituições sociais. É uma forma de autoconhecimento, auto desenvolvimento, vinculação, atuação, comunicação, e consciência de si no tecido e meio sócio cultural.

 

Dentre os benefícios das competências socioemocionais, podemos destacar a promoção da saúde mental e a melhor adaptação ao meio sociocultural.  Para tal é importante, entre outros, o reconhecimento e diferenciação da dor, sofrimento, emoções e sentimentos para o melhor desenvolvimento de estratégias para lidar com situações tanto cotidianas, corriqueiras como àquelas mais difíceis e delicadas.

 

Na psicologia transpessoal, falamos, por exemplo, de quatro emoções básicas: Raiva, Medo, Tristeza e Alegria. Outras escolas vão abordar outras categorias como: raiva, medo, tristeza, alegria e nojo. Ou ainda incluir a surpresa entre estas 5.

 

Destas 4 emoções básicas aqui nomeadas, duas são ativas: Raiva e Alegria. Duas são passivas: Medo e Tristeza.  Todos nós as temos, manifestamos e somos afetados por estas emoções. Em algum momento, estas se farão presentes em nossa vida, em maior ou menor intensidade. Por vezes, a intensidade e forma de expressão são consideradas inadequadas e até mesmo perigosas. Isto porque certas emoções nos afetam e tomam o nosso corpo, nos fazendo agir impulsiva ou inconsequentemente. Não raro, não conseguimos descrever o ocorrido, vivenciando um misto de culpa, descontentamento e sensação de estarmos perdidos (as). Mal-entendidos, desentendimentos e conflitos surgem disto. Ou situações mais graves, onde o descontrole emocional pode causar consequências sérias pessoais e envolver pessoas próximas.

 

Tais exemplos apontam para nossa maturidade e/ou imaturidade emocional para lidar com tal ou qual situação. Somos seres incompletos e em desenvolvimento; inclusive socioemocional.

 

Quando somos estimulados a pensar no que aconteceu, como aconteceu e quais os efeitos disto a curto e longo prazo começamos a perceber, reconhecer e administrar melhor estas manifestações em nós mesmos e em nosso entorno. Observação, nomeação, externalização e percepção interna são muito estimuladas por exemplo no trabalho psicoterapêutico. Agora também estamos estimulando este recurso, ferramenta em ambientes educacionais.

 

Na psicoterapia, por exemplo, sabemos que se nosso(a) cliente consegue se autoperceber, falar sobre, refletir e externalizar suas emoções e sentimentos começa a ter maior percepção corporal, consequência, consciência e auto responsabilização. Isto o torna mais maduro e preparado para os desafios e dificuldades que ocorrerão no dia a dia em uma megalópole como São Paulo.

 

É uma forma de lidar melhor com os limites que o cotidiano nos impõe, com as frustrações advindas do meio externo, dos relacionamentos e vínculos que mantemos e da dor trazida por algumas situações para as quais ainda somos incapazes e imaturos. Saber perceber as emoções, conhecer seus caminhos em nosso corpo e ser, nomeá-las e vivenciá-las conscientemente nos traz inteligência emocional e maturidade interpessoal.

 

É um percurso colorido, por vezes dolorido, de autoconhecimento e autodesenvolvimento – para melhor lidar comigo e com o todo que me envolve, complementa, sustenta e intercambia.

 

Conforme reflexão feita por Thomas Hübl: “Cuanto más profunda se ala relación que soy capaz de crear conmigo mismo tanto menos tengo que proyectar mis problemas fuera”, estamos trabalhando com seres humanos. Frágeis, delicados, imperfeitos, faltantes. Acredito que quanto mais consciente o ser for de suas limitações, manifestações, relações e possibilidades, mais responsável e cuidadoso será consigo e com o outro.

 

Na roda de conversa, abordamos também os conceitos de simpatia, antipatia e empatia. O vínculo e a forma de relação que estabelecemos com o outro.  O descuido ou o cuidado com o outro. O cuidado consigo. Posso até não simpatizar com algo. Posso ter minhas opiniões divergentes, mas isto não significa que eu possa agir de maneira agressiva, violenta ou intempestiva com tal. Respeitar o outro em sua diferença e características próprias. Dar espaço e, respeitar, sem atacar. A importância de empatizarmos com nossos colegas, com jeitos, formas e culturas diversas. Ter empatia com nossa comunidade, com o que nos envolve para sentirmos, saber o que sentimos e fazer algo, manifestar algo, conscientemente, daquilo que nos toma, habita e move.

 

Conceituando Empatia:

1.faculdade de compreender emocionalmente um objeto e ou situação (um quadro, uma escultura, uma foto, um filme).

2.capacidade de projetar a personalidade de alguém num objeto, de forma que este pareça como que impregnado dela.

3.capacidade de se identificar com outra pessoa, de sentir o que ela sente ou poderia estar sentindo, de apreender do modo como ela apreende etc.

Para psicologia: processo de identificação em que o indivíduo se coloca no lugar do outro e, com base em suas próprias suposições ou impressões, tenta compreender o comportamento do outro.

Para sociologia: forma de cognição do eu social mediante três aptidões: para se ver do ponto de vista de outrem, para ver os outros do ponto de vista de outrem ou para ver os outros do ponto de vista deles mesmos

 

Verifiquei novamente que o(a)s jovens estão abertos ao diálogo e troca. Cada um à sua maneira e compasso. Alguns mais agitados e inquietos que outros. Outros quietos demais. Como se manifestam? O que demonstram e denunciam com seu comportamento? O que precisam?  Este é o desafio de educadores, pais e terapeutas. Os jovens têm muitas dúvidas e estão maravilhados com o mundo que se mostra à sua frente. Têm um jeito e maneira própria de falar, vestir, sentir, expressar. Busco formas de entrar em conexão e troca com ele(a)s. Com sua linguagem e forma de apreender a cultura e meio social. É fundamental fazer algumas apresentações em relação à este mundo que se mostra para ele(a)s. Não que a vida tenha manual de instruções. Mas buscar possibilitar a conversa, troca, reflexão, problematização, debate é essencial para amadurecer este percurso e desafios pela vida. Fazer orientações, contar experiências, questionar e se permitir ser questionado e escutar o que floresce disto. Afinal, todos temos um corpo, aos poucos fomos aprendendo e nos habituando ao mesmo...nunca totalmente, pois ele nos surpreende. Desta surpresa, deste novo, eu crio. E junto com o outro, co-crio.

 

Ao final das rodas de conversa, foi apresentado aos jovens o Chart Neuro linguístico, o qual todos receberam uma cópia e levaram para casa. O Chart é um recurso da Programação Neurolinguística para “recalibrar” o cérebro. Auxiliar na concentração, acalmar e observar de forma mais atenta, ciente seu corpo e os processos corporais, inclusive as emoções e sentimentos. Aprendi o mesmo com meu psicoterapeuta e este me contou que este recurso havia sido desenvolvido por pesquisadores da NASA para auxiliar os pilotos e profissionais nos testes e treinamentos extremamente difíceis pelos quais passavam.

 

Contei aos jovens que os antigos nos ensinavam a não tomar decisões de “cabeça quente” ou “contar até 10 e respirar para se acalmar” – é um princípio parecido - mas neste caso envolve o corpo, fala e concentração da pessoa que executa o exercício, levando-a a outro estado mental e emocional. É um exercício psicomotor. Por trabalhar lados opostos do corpo, o movimento e a fala concomitantemente, atua sobre os hemisférios direito e esquerdo do cérebro, levando a um estado mais calmo, equilibrado e, divertido. É um exercício lúdico e desafiador.

 

A pessoa se posiciona em pé de frente para a folha do Chart. O Chart é um alfabeto, que será lido em voz alta pela pessoa e, abaixo de cada letra do alfabeto, há 3 letras menores (d, e, j) que correspondem a movimentos corporais. Enquanto a pessoa entoa o alfabeto em voz alta, executa os movimentos correspondentes a cada letra. As letras pequenas equivalem a (d)ireita, (e)squerda e (j)untos – que são os movimentos do corpo, ora mais à direita, ora mais à esquerda, ora juntos.

 

Em cada grupo um aluno ou aluna foi selecionado para demonstrar o exercício e verificar se o ou a mesmo(a) validava os efeitos calmantes, divertidos e diferenciados após a execução do mesmo. Sugeri que todos utilizassem o chart para fazer suas tarefas escolares, antes de estudar para provas, antes de provas, antes de ensaios, de apresentação, antes ou após um desafio ou momento de tensão, brigas, desentendimentos – para sentir o corpo, os comportamentos, as sensações, os pensamentos, as emoções...nomeá-las e, aprender com estas. Sugeriu-se também que mostrassem aos professores, coordenadores e fizessem em conjunto – pois é para ser um recurso útil e, divertido, para todos. Alguns professores estiveram presentes durante a roda de conversa e treinaram, exercitaram o Chart junto com alunos e psicoterapeuta. A coordenadora Ruth Nassif esteve presente em diversas das Rodas de Conversa e verificou que diversos alunos fizeram o Chart após a roda de conversas. Achei importante, além do espaço de expressão e escuta, poder oferecer um recurso útil para os jovens em seu dia a dia.

 


A reflexão final da roda de conversas segue:

 

“Ninguém nasce odiando outra pessoa pela cor de sua pele, por sua origem ou ainda por sua religião. Para odiar, as pessoas precisam aprender, e se podem aprender a odiar, elas podem ser ensinadas a amar.” Nelson Mandela

 

Agradeço à direção e coordenação do Colégio Imperatriz Leopoldina pela abertura, confiança e parceria neste trabalho delicado e essencial. Aos pais e alunos pela presença e possibilidade de troca, reflexão, debate e, sempre, aprendizado!


Colégio Imperatriz Leopoldina - http://www.colegiocil.com.br

Imagens impactantes contemporâneas

 

“Arrastamo-nos por trás da mídia digital, que, aquém da decisão consciente, transforma decisivamente nosso comportamento, nossa percepção, nossa sensação, nosso pensamento, nossa vida em conjunto. Embriagamo-nos hoje em dia da mídia digital, sem que possamos avaliar inteiramente as consequências desta embriaguez. Essa cegueira e a estupidez simultânea a ela constituem a crise atual.” Byung Chul Han


Somos Terapeutas online...
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Fazemos relatórios, laudos, conferências, lives, chats, relacionamentos, namoros, sexo...online?

Em linha...seguindo (automaticamente) para onde todos ( quem?) seguem...

A sociedade e cultura são nossa base simbólica, linguística, berço de nossas crenças, aprendizagens e vivências. Somos seres sociais. Seres da e na Cultura. Imersos na Linguagem. Constituídos pela Linguagem. Pelos signos e símbolos que a caracterizam, modelam, adequam, e movimentam...constantemente.

Estamos sempre em processos de mudança. Seja interna, externamente. Transitórios. De passagem. Alterando e alternando-se.

As crises e os conflitos nos alteram. Fazem com que reflitamos e possamos rever, posturas, pontos de vista, perspectivas, crenças...ou não!

Podemos viver a vida de forma Presente, Conscientemente, ou de forma alienada, anestesiada, autómatos...

Quando a vivemos de forma alienada...banalizamos...deixamos estar...repetimos sem criar, sem movimentar-se...sem transformação!

Seguem algumas imagens que podem ser vistas na perspectiva sintomática. Signos e Sintomas de nossa sociedade e cultura. O Mal estar em nossa Civilização. O quanto estamos atentos? O quanto estamos vigilantes? O quanto estamos conscientes, do fluxo e posicionamento em que nos encontramos em nossa vida, em nossa comunidade, em nossa sociedade, em nossa cultura?

A partir de diversas imagens, de diferentes artistas, que circulam pelas mídias sociais, como facebook, instagram, twitter, propõe-se aqui um momento de parada, de silenciosa avaliação e reflexão.

Deixe as imagens atuarem. 

Elas provocam desconforto...e questionamentos...Para onde vou, pessoalmente, relacionalmente, coletivamente, ecologicamente, espiritualmente, como Ser Humano inserido na Humanidade?


Máscaras que se encontram e distraem-se em seu tédio de Ser...


Real ou Virtual - Realidade ou Ficção 



A serviço de quem? A serviço do que?


Muros tecnológicos que nos separam e distanciam


Novas realidades...novos vícios


Isoladamente em seus mundos particulares


Escravos de expectativas...

O presente que pode vir a definir um futuro...


O que valorizamos em nossa cultura?


Relacionamentos esmagados pelo Virtual


O silêncio (perturbador) na rede

Você é seu próprio algoz...e, talvez, redentor...



Dispositivos ilusórios


Brincar?


Ao que eu me prendo...


Falsos Deuses...


A que preço?


#TBT Aliens


Desigualdades...


Ser ou Ter? Ter ou Ser?


Ousar ser diferente...


Prioridades

A sociedade do espetáculo


Relacionamentos abusivos

O que me nutre?



Valores?


Eu enxergo o outro?


Padrões que escravizam...


Valor? Ou preço?


Somos Ilhas?


Minha droga diária...


Abismos relacionais...


Adeus, Mamãe...

Recolhimento Social


“When I’m overwhelmed to deal with my emotion right now, I need connection. I need to talk to somebody, share my fears, my feelings. Togehter, we create a relational resourcing for each other. That’s why community building is so importante right now” Thomas Hübl

"Quando estou sobrecarregado demais para lidar com minhas emoção no momento presente, eu preciso de conexão. Eu preciso falar com alguém, compartilhar meus medos, meus sentimentos. Juntos, criamos recursos na relação um para o outro. É por isso que a construção e manutenção da comunidade é tão importante neste momento agora" Thomas Hübl

A palavra, que muitas vezes é utilizada e refletida por um amigo conhecido meu, Pastor Ernani Röpke, nos cultos da Igreja Luterana na Cantareira/SP e que, além de bonita tem muita força é: Comunhão!

Fé e comunhão.

Utilizarei estas para tecer algumas reflexões neste momento de afastamento das atividades em grupo, revisão das atividades diárias, reformulação da prática profissional, recolhimento social, replanejamento de agenda e introspecção.

Este é um momento delicado. Um momento de muitos achismos, diz que me diz, insegurança e medo quanto à doença e quanto à morte. O desconhecido e o temido. Medo pois é novo. É inesperado. Foge de nosso controle.

Importante não entrarmos no circuito do medo e na resposta instintiva de "Luta e fuga" que leva ao pânico e histeria! Esta é a resposta de nosso sistema cerebral mais primitivo e instintivo, o sistema reptiliano - porém temos outros sistemas também, o límbico, onde estão nossas emoções, cuidados, afetos, sentimentos - e o sistema neocortex, onde temos nossos pensamentos, racionalidade, inteligência. O que quero dizer com isto...todos nós temos recursos. Todos nós podemos fraquejar e ficar desesperados...mas, podemos também lembrar que há alternativas, há possibilidades, há recursos...internos inclusive. E quando percebemos que nosso familiar, amigo e colega, está com dificuldades, podemos lembra-lo destes recursos, destas possibilidades...de que ele, ela, não estão sós nesta crise, nestas duvidas, neste momento de mudanças!

Respira fundo, fique no momento presente, você não está sozinho!

Infelizmente há muitas informações desencontradas. Há muitas fake News. Nossos gestores públicos por vezes se mostram despreparados e falam coisas que por vezes pioram ainda mais o cenário...sem falar que, durante anos, repetidamente fizeram cortes nas áreas da saúde, educação, pesquisa...estas coisas não dá para voltar atrás e também não adianta ficar se queixando agora. Precisam ser revistas e reparadas em outro momento.

Agora todos estão se esforçando para encontrar alternativas. Respostas preventivas. Cuidados gerais.

O foco é, mantermos a união. Conversarmos uns com os outros, via vídeo conferencia, via salas de encontros como Zoom, via Lives no facebook e instagram, chamadas de telefone - utilizarmos a tecnologia à nosso favor neste momento de isolamento, distanciamento e de crise!

Trocar palavras de apoio, focar em possibilidades neste momento, apoiarmos uns aos outros. É difícil para todos nós.

Não sabemos o amanhã, por isto é o novo, nos causa angústia.

Mas, não é a primeira vez que passamos por uma crise - lembrem-se, já passamos, superamos e sobrevivemos à crises anteriores. E, provavelmente, se olharmos para trás, a crise que parecia tão horrível à época, até que nos fez sairmos melhores, crescemos, aprendemos, nos desenvolvemos. A vida nos deixa marcas. Muitas, de crescimento e amadurecimento. Muitas, para lembrar, você passou por isto. Você sobreviveu.

Por vezes quando estamos no centro da crise, desanimamos, desesperamos e achamos que tudo acabou. Não acabou. Estamos vivos. Há um plano para todos nós. Não é em vão nossa vida, nem nossa passagem por aqui...nem será!

É momento de comunhão, é momento de solidariedade, é momento de cuidados gerais, consigo e com os outros.

Momento de reflexão, introspecção e revisão.

Momento de arrumação geral.

O que eu espero do mundo quando passarmos por esta crise?

O que eu espero de mim quando passar por esta crise?

O que posso fazer para lidar com este momento de crise, por mim e pelos meus familiares, amigos e colegas?

Como posso pedir ajuda, quando precisar?

Como posso contribuir?

Que recursos externos disponho, que recursos internos disponho?

E, se por algum momento, você pensar...não tenho recursos...vou lhe lembrar: você está vivo! Você é parte de uma obra de perfeição, chamada por muitos, de Divino(a).

E este, esta, também, habita você.

Seguimos, juntos, rumo à este novo que se apresenta.

Abraços virtuais à todo(a)s!

René Schubert





Nesta mesma linha, René Schubert é entrevistado pelo terapeuta e facilitador Gil Mori, do Instituto Casa do Encontro. Em uma sequência de vídeos que aborda questões vinculadas a Pandemia do COVID-19 - sob o título: "Viver, Conviver e Sobreviver”





Referências:

Reflexões em tempo de recolhimento social.- Postado no Site Movimento Sistêmico (Março 2020): https://www.movimentosistemico.com/post/reflexões-em-tempo-de-recolhimento-social

Reflexões em tempo de recolhimento social - Postada como coluna no Jornal Zen (Março 2020): http://jornalzen.com.br/2020-2-4/