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Genograma: a representação gráfica da estrutura familiar

Neste vídeo o psicólogo René Schubert faz uma sucinta explanação acerca da ferramenta clínica utilizada em saúde mental chamada de Genograma.

Qual a nossa origem? De onde viemos?
Em uma resposta objetiva e direta, de nossos pais! E a partir deles temos muitas informações sobre nós mesmos. Somos geneticamente o que somos pela união feita entre nossos pais. Ou seja, temos um genótipo e um fenótipo, um código gênico que determina diversas características que apresentamos hoje e algumas que ainda irão se apresentar. O orgânico se mostra como fator primeiro, em seguida virão as nossas interações com o meio externo, eventos e situações. Podemos de forma didática dizer que recebemos 50% do que somos de nossa mãe e 50% de nosso pai.
Em consultório é interessante observar o seguinte fenômeno: por vezes o cliente tem algumas informações sobre sua origem, por vezes a desconhece em diversos aspectos fundamentais. Por isto em psicoterapia sabemos da importância de investigar e por vezes construir, dar significado, reconstruir, elaborar juntamente com o cliente sua estrutura, história e origem familiar. Há fatos relevantes em nossa história de origem e sequência posterior e em informações e dados de como isto foi se sucedendo. 
Trazer estes fatos a tona e à consciência auxiliam muito o  cliente em sua localização e atuação na sua estrutura familiar. São informações que atuam a serviço do cliente e de seu sistema familiar de uma boa forma. Em um trocadilho “saber é poder” seria como o cliente apoderar-se de si mesmo por conta de sua história e estrutura familiar. Por vezes utilizamos para isto como ferramenta clínica ou recurso terapêutico o chamado Genograma.
Definição de genograma: “Informa de maneira completa e objetiva os dados de uma determinada família, fazendo de forma realista uma revisão do passado familiar e dos potenciais problemas de saúde, assim como fornece informações ricas sobre os relacionamentos, incluindo ocupação, religião, etnia e migração”.

O Genograma é uma ferramenta clínica provinda da Terapia Sistêmica Familiar e foi idealizado pelo psiquiatra norte americano Murray Bowen, aproximadamente em 1954.   
Desta maneira, o genograma é a representação gráfica da família. Neste são representados, descritos, colocados os diferentes membros da família, o padrão de relacionamento entre eles e as suas principais características, referências, doenças, eventos ou episódios marcantes. Podem ser acrescentados dados como ocupação, hábitos, escolaridade e evidentemente fatos relevantes da família, entre outros, de acordo com o objetivo e temática principal do Genograma. Esta demonstração gráfica da situação permite que o indivíduo pare e reflita sobre os vínculos e a dinâmica familiar, os problemas mais comuns que o atingem e afligem e o enfrentamento destes pelos membros da família.
“Com o recurso do Genograma vêm as informações junto com as emoções relacionadas a cada pessoa, vínculo, história... é um recurso rápido para alcançar camadas profundas do sistema familiar de nosso cliente. Pontual para visualizar o sistema e estrutura familiar do cliente e quais associações este processo traz" Dra. Ursula Franke Bryson
É do pensador Edmund Burke a frase: “Um povo que não conhece a sua história está condenado a repeti-la” que posteriormente é parafraseada por Bert Hellinger como: "Aquele que não conhece a própria história tende a repeti-la".
Funcionalmente o Genograma atua como ferramenta de investigação e reflexão da estrutura e histórico familiar e pode trazer muitos benefícios no sentido de autoconhecimento, consciência, diferenciação e formas de ação e comunicação dentro do sistema familiar.
Apesar de ser uma ferramenta clínica muitas vezes utilizada para investigação e para fins terapêuticos por profissionais da saúde (médicos, enfermeiros, psicólogos, fisioterapeutas, entre outros) muitas vezes pessoas interessadas ou curiosas em relação à sua própria história de vida e histórico familiar vão utilizar esta representação gráfica para fazer o levantamento e estudo transgeracional ou árvore genealógica.   
Árvore genealógica é um histórico de certa parte dos antepassados de um indivíduo ou família. Trata-se de uma representação gráfica genealógica para mostrar as conexões familiares entre indivíduos, trazendo seus nomes e, algumas vezes, datas e lugares de nascimento, casamento e morte, além de fotos.   
Estas são formas de pesquisa e estudos de nossa história de origem e desenvolvimentos anteriores e posteriores. Um estudo acerca de nosso legado. Como uma linha do tempo, e do espaço, no sentido de lugar, dos nossos familiares e de nos mesmo(a)s como lugar e história.
Utilizando estas ferramentas podemos verificar e desvelar certos padrões de crenças, motivações, comportamentos, palavras e frases típicas, repetições, evidências e fatos antes ocultos, misteriosos e/ou perigosos que influenciam nossa vida direta ou indiretamente.
(Alguns Sinais/Símbolos comumente utilizados em Genogramas)
   
Referências para pesquisa sobre o assunto:
Atendimento Individual em Constelação Familiar - Dra. Ursula Franke-Bryson - Transcrição de treinamento de 2017 -  http://aconstelacaofamiliar.blogspot.com/2017/07/atendimento-individual-dra-ursula.html
Departamento de Atenção Básica - Genograma familiar – Vídeo de Youtube - https://www.youtube.com/watch?v=8ugbsSyYgVc
Genograma: a representação gráfica da estrutura familiar – Vídeo de Youtube (2019) - https://youtu.be/TtG5tdRB53Q
Genograma: Árvore da vida - René Schubert para o site Movimento Sistêmico (2019) - https://www.movimentosistemico.com/post/genograma-árvore-da-vida
Sites para pesquisas genealógicas e construção da arvore genealógica:
  
  

Lançamento: Toques na Alma, volume 2



Toques na Alma - Volume 2

Dia 7/03 das 16 às 19 horas na Conexão Sistêmica

Faz dois anos que lançamos o livro Toques na Alma. Um livro com diversas práticas, exercícios, dinâmicas sistêmicas. Reflexões, visualizações, meditações aprendidas com diversos professores nacionais e internacionais. Este livro teve excelente recepção pelo publico. Por isto nos juntamos novamente e escrevemos: Toques na Alma, volume 2.

Escrito por diversos profissionais  brasileiros que atuam no campo das Constelações Familiares em seus variados e abrangentes ramos de atuação.


Escrito pelos colegas: Alicio Gobis; Cidinha Aguilar Clemente; Graciela Rozenthal; Oswaldo Santucci; Glaucia Paiva; Heloisa Pessoa; Irene Cardotti; Debora Ganc; Clara Shnaider Sivek; René Schubert


Desta vez com 40 exercícios e recursos sistêmicos para autodesenvolvimento, autoconhecimento, conscientização, mudança de perspectiva e processos de Transformação. 

Exercícios, dinâmicas, visualizações e reflexões pensados para terapeutas, consultores, mediadores e facilitadore(a)s. 

Do mergulho na escuridão ao emergir da luz



Reflexões sobre Frozen a partir da teoria de Carl G. Jung

por Isabella Sprovieri

“O autoconhecimento de cada indivíduo, a volta do ser humano às suas origens, ao seu próprio ser e à sua verdade individual e social, eis o começo da cura da cegueira que domina o mundo de hoje. O interesse pelo problema da alma humana é um sintoma dessa volta instintiva a si mesmo. Que este meu trabalho esteja a serviço desse interesse.” (C. G. Jung - Küsnacht—Zürich, outubro de 1918)
“Na realidade, a natureza humana é portadora de um combate cruel e infindável entre o princípio do eu e o princípio do instinto: o eu, todo barreiras; o instinto, sem limites; ambos os princípios com igual poder.”
“A alma está em busca da expressão de sua totalidade.”
(JUNG, Carl Gustav. Psicologia do Inconsciente, Obras Completas, Petrópolis, Vozes)


“Quem progredir no caminho da realização do Self (si-mesmo) inconsciente trará inevitavelmente à consciência conteúdos do inconsciente pessoal, ampliando o âmbito de sua personalidade.”
“Nossa psique consciente e pessoal repousa sobre a ampla base de uma disposição psíquica herdada e universal, cuja natureza é inconsciente.”
“Individuação significa tornar-se um ser único, na medida em que por ‘individualidade’ entendermos nossa singularidade mais íntima, última e incomparável, significando também que nos tornamos o nosso próprio Self (si-mesmo).”
 (JUNG, Carl Gustav. O Eu e o inconsciente; tradução de Dora Ferreira da Silva.
21. ed. - Petrópolis, Vozes, 2008.)


As reflexões sobre os filmes Frozen I, Uma Aventura Congelante e Frozen II, O Reino do Gelo a seguir serão realizadas a partir das letras das principais canções dos filmes: Let it Go (Frozen I), Into the Unknow e Show Yourself (Frozen II) sob a ótica da Psicologia Junguiana. Importante ressaltar que essa é uma dentre as inúmeras leituras que podem ser realizadas. Mais do que isso. É um convite a você leitor para refletir, questionar, aprofundar, viajar e até formular a sua própria reflexão.



DEIXE ESTAR OU LIVRE ESTOU

"A neve branca brilha na montanha esta noite
Nenhuma pegada pode ser vista
Um reino de isolamento
E parece que eu sou a rainha"

Podemos associar a imagem descrita na primeira estrofe à depressão. Conforme apontado por René Schubert em texto sobre Depressão/Melancolia “As pessoas deprimidas colocam significados distorcidos em três domínios aos eventos da vida. O interno versus externo, onde o indivíduo deprimido assume culpa excessiva pelos eventos negativos. Global versus específico, onde concluem que as ocorrências negativas são de implicações de longo alcance, globais ou totalmente abrangentes. Fixo versus mutável, na qual situações negativas ou problemáticas são vistas como imutáveis sem melhoria no futuro”.

Vemos o “interno versus externo” quando Elsa se culpa pelo acidente que ocorre em sua infância, envolvendo sua irmã Anna e a partir daí, além de ser afastada da irmã, passa a reprimir parte de sua essência. O “global versus específico” pode ser conferido quando Elsa vai embora de seu reino Arendelle e se isola em seu castelo de gelo, convicta de que somente se afastando de tudo e todos, ela conseguiria não fazer mal a ninguém. E finalmente, o “fixo versus mutável” quando, por exemplo, o príncipe Hans pede que Elsa acabe com o inverno e ela responde que não consegue, pois naquele momento ela só enxerga desastre, fracasso, incapacidade, não considerando nenhuma possibilidade de mudança.

A depressão não é solar, não é calor nem dia. Ela é noite, escuridão, desconhecido, frio, solidão. Entretanto, a depressão também pode se apresentar como oportunidade de autoconhecimento, resgate e transformação. A palavra depressão tem sua origem no latim depressare, do verbo deprimere, “prensar, esmagar”, formado por de-, “para baixo”, mais premere, “apertar, comprimir”. Sendo assim, podemos entender a depressão com um “afundamento” em si mesmo. E é a partir deste mergulho que nossa protagonista Elsa inicia sua transformação em Frozen I, Uma Aventura Congelante, com o ápice em Frozen II, O Reino do Gelo.

"O vento está uivando
Como essa tempestade que rodopia dentro de mim
Não consegui contê-la
Os céus sabem que eu tentei"

Depressão e ansiedade são dois estados que costumam se alternar. Assim como a tempestade que muitas vezes dá sinais de que vai chegar, a crise de ansiedade também dá. A questão é que muitas vezes só conseguimos enxergar esses sinais, depois que já fomos “devastados” por ela.  E, embora até tentemos contê-la – nos acalmar, mudar o pensamento, respirar, meditar, orar – nem sempre conseguimos. Na visão junguiana, essa tempestade também poderia simbolizar o conceito de ‘complexos’, temas emocionais reprimidos cuja força nos toma, sendo capazes de provocar distúrbios psicológicos permanentes ou mesmo, em alguns casos, sintomas de neurose.

"Não os deixe entrar, não os deixe ver
Seja a boa menina que você sempre precisou ser
Esconda, não sinta
Não deixe que eles saibam
Bem, agora eles sabem!"

Na terceira estrofe, é possível encontrar uma das causas, gatilho, a crença limitante associada à ansiedade e depressão. Qual o preço que se paga em ser “a boa menina que você sempre precisou ser”? E nessa frase o gênero independe. Quanto custa tentar ser “bom” o tempo todo? Lembrando que esse é um conceito bastante relativo, pois talvez o que é bom pra mim, não seja para outra pessoa e vice-versa. “Esconda, não sinta Não deixe que eles saibam” até quando isso é possível? Esconder dos outros e esconder de nós. “Bem, agora eles sabem!” Essa sem dúvida é uma frase libertadora. É o momento em que falamos, desabafamos, aceitamos, partilhamos, pedimos ajuda.

"Deixe estar, deixe estar
Não posso suportar mais
Deixe estar, deixe estar
Dou as costas e bato a porta
Eu não me importo
Com o que eles vão dizer
Deixe a tempestade rugir
O frio nunca me incomodou mesmo"

Na quarta estrofe, encontramos um dos momentos mais significativos. Interessante que outra variação para o “deixe estar” na versão dublada do filme é “livre estou”. Ambos fazem sentido.  Em “Dou as costas e bato a porta | Eu não me importo | Com o que eles vão dizer”, vemos o quanto estar em paz conosco, com nossas escolhas, com nosso propósito de vida é mais importante do que simplesmente nos preocuparmos com a opinião dos outros. E, finalmente, deixar a tempestade rugir representa aceitar o inevitável, o bom e o mau, o fácil e o difícil. É aceitar o fluxo da vida com sua tensão entre os opostos, certamente um trabalho inesgotável.

"É engraçado como alguma distância
Faz tudo parecer pequeno
E os medos que uma vez me controlaram
Não podem me pegar de jeito nenhum"

Na quinta estrofe, podemos identificar o processo de autoconhecimento que nos ajuda a olhar a vida com “alguma distância” e enxergar novas perspectivas. Talvez em algum momento, fortalecidos, até tenhamos a sensação de que “os medos que uma vez me controlaram Não podem me pegar de jeito nenhum”. Isso é verdade? Sim e não. Veremos isso mais claramente em Frozen II. É possível que alguns medos sejam controlados, ou melhor, reconhecidos, integrados, ressignificados. Só que o medo em si faz parte do nosso instinto de preservação, portanto sempre vai existir, mas temos a possibilidade de aprender a utilizá-lo a nosso favor.

"É o tempo de ver o que eu posso fazer
Testar os limites e superá-los
Sem certo nem errado
Sem regras para mim
Estou livre!"

Na quinta estrofe, chegamos a um dos momentos mais desafiadores: o “colocar em prática”. Sair da zona de conforto poderia ser um sinônimo desse trecho da música. Também é possível fazer uma relação com a Jornada do Herói, na qual o mesmo sai em busca de algo, enfrenta “dragões”, encontra o elixir e retorna para partilhar seu aprendizado, contribuindo para o Bem Comum.

"Deixe estar, deixe estar
Sou uma com o vento e céu
Deixe estar, deixe estar
Você nunca vai me ver chorar
Aqui estou eu
E aqui eu vou ficar
Deixe a tempestade rugir"

Na sexta estrofe em “Sou uma com o vento e céu”, (e na alegria e plenitude que Elsa demonstra neste momento) é possível perceber que uma tomada de consciência de que o planeta é nossa casa, que somos todos irmãos, que existe algo maior que a nossa própria individualidade faz com que nosso mundo externo ganhe um colorido diferente e o nosso mundo interior também. A espiritualidade que nos conecta ao Deus dentro de nós também nos dá a força necessária para aceitarmos o inevitável, o fluxo da vida e o nosso destino “Aqui estou eu | E aqui eu vou ficar | Deixe a tempestade rugir”.

"Meu poder voa através do ar para o chão
Minha alma está espiralando em fractais congelados ao redor
E um pensamento cristaliza como uma explosão gelada
Eu nunca vou voltar
O passado está no passado"

Na sétima estrofe, em “Minha alma está espiralando em fractais” podemos encontrar o conceito de psique como pluralidade e não unidade. Em “Eu nunca vou voltar | O passado está no passado” não significa que não haverá outra crise, mas que ainda que as crises de ansiedade e depressão sejam recorrentes, elas são diferentes. Sempre “aprendemos” algo novo o que nos leva a afirmar que não voltamos para o mesmo lugar.  

"Deixe estar, deixe estar
E eu vou subir como o amanhecer
Deixe estar, deixe estar
A garota perfeita se foi
Aqui estou eu
À luz do dia
Deixe a tempestade rugir
O frio nunca me incomodou mesmo"

Se a primeira estrofe nos trouxe a imagem da noite, a última traz a do amanhecer que simboliza a elaboração, o renascimento, novas possibilidades, um novo eu, uma consciência mais ampliada. Em “A garota perfeita se foi | Aqui estou eu | À luz do dia”, o perfeito, sinônimo de exatidão, sem defeito nem falhas, dá lugar à harmonia que, com a combinação de elementos opostos traz equilíbrio, conciliação, reconciliação, sendo, portanto muito mais humana.


RUMO AO DESCONHECIDO

"Eu posso te ouvir, mas não vou
Alguns procuram problemas, enquanto outros não
Há mil motivos para eu seguir com o meu dia
E ignorar os seus sussurros
Que eu gostaria que parassem, oh-oh-oh
Você não é uma voz
Você é apenas um zumbido em meu ouvido
E se eu te ouvisse, o que não é o caso
Eu estaria comprometida, temo eu
Todos que eu já amei estão aqui, dentro essas paredes
Sinto muito, som secreto, mas estou bloqueando seus chamados
Eu já tive minha aventura, não preciso de algo novo
Tenho medo do que estarei arriscando se eu te seguir
Rumo ao desconhecido
O que você quer?
Porque você tem me deixado sem sono
Você está aqui para me distrair para que eu cometa um grande erro?
Ou você é alguém aí fora que é um pouquinho como eu?
Que sabe que, no fundo, eu não estou onde deveria estar?
Todo dia é um pouco mais difícil enquanto sinto meu poder crescer
Você não sabe que há uma parte de mim que deseja ir
Rumo ao desconhecido
Oh-oh-oh
Você está aí fora?
Você me conhece?
Você pode me sentir?
Você pode me mostrar?
Aonde você vai?
Não me deixe sozinha
Como eu sigo você
Até o desconhecido?"


Rumo ao desconhecido retrata belissimamente Elsa e seu contato com o inconsciente. No filme, vemos Elsa ser “acordada” por uma voz. Claramente, nesse primeiro momento, há conflito e medo “Eu posso te ouvir, mas não vou | Alguns procuram problemas, mas outros não” / “Tenho medo do que estarei arriscando se eu te seguir”. A voz incomoda Elsa e a primeira reação que ela tem é a de bloqueá-la. “Há mil motivos para eu seguir com o meu dia | E ignorar os seus sussurros | Que eu gostaria que parassem” e “Sinto muito, som secreto, mas estou bloqueando seus chamados.”

Edward Edinger em Ego e Arquétipo coloca que “A cada novo aumento da consciência, também há conflito. Esse é o modo pelo qual cada aumento do grau de consciência anuncia sua presença: o conflito.”

Para Elsa ampliar sua consciência será necessário “mergulhar” no desconhecido.

Em “Você está aqui para me distrair para que eu cometa um grande erro? Ou você é alguém aí fora que é um pouquinho como eu?” vemos Elsa dando uma oportunidade ao conteúdo que está emergindo mostrar a que veio. E aqui a jornada começa, ou melhor, continua. Porque como vimos em Frozen I, a jornada de Elsa começa no momento da crise, do isolamento, da depressão e ansiedade. Toda crise traz consigo uma oportunidade de mudança, de autoconhecimento, de ampliação da consciência. E é essa oportunidade que vemos Elsa “agarrar” em Frozen II.


MOSTRE-SE

"Cada centímetro de mim está tremendo
Mas não de frio
Alguma coisa é familiar
Como um sonho que eu posso alcançar, mas não consigo segurar
Eu posso sentir você lá
Como um amigo que eu sempre conheci
Eu estou chegando perto
E sinto que estou em casa
Eu sempre fui uma fortaleza
Com segredos escondidos dentro
Você tem seus segredos também
Mas não precisa se esconder
Mostre-se
Estou morrendo de vontade de conhecer você
Mostre-se
É sua vez
Você é aquilo que eu estive procurando
Por toda a minha vida?
Mostre-se
Estou pronto para aprender
Ah ah ah ah
Ah ah ah ah ah
Eu nunca me senti tão certa
Toda a minha vida eu estive em pedaços
Mas estou aqui por uma razão
Poderia ser essa a razão de eu ter nascido?
Eu sempre fui tão diferente
Regras normais não se aplicavam
Este é o dia?
Você é o caminho
Eu finalmente descubro o porquê?
Mostre-se
Não estou mais tremendo
Aqui estou
Eu cheguei tão longe
Você é a resposta que eu esperei
Por toda a minha vida
Oh, mostre-se
Deixe-me ver quem você é
Venha para mim agora
Abra sua porta
Não me faça esperar
Nenhum momento a mais
Oh, venha para mim agora
Abra sua porta
Não me faça esperar
Mais
Onde o vento norte encontra o mar
Ah ah ah ah
Há um rio
Ah ah ah ah
Cheio de memória
Venha, minha querida, de volta ao lar
Eu me encontrei
Mostre-se
Entregue-se ao seu poder
Cresça
Em algo novo
Você é o que você estava esperando
Toda a minha vida
Toda a sua vida"

A partir da canção Mostre-se, podemos falar sobre o Self e o processo de individuação de Elsa.
“Eu sempre fui uma fortaleza | Com segredos escondidos dentro” 

Podemos apontar para uma relação do Ego, centro da consciência (uma “suposta” fortaleza) com o inconsciente (segredos escondidos dentro).                      
“Estou morrendo de vontade de conhecer você”     

Considerando que aquilo que Elsa estava ‘morrendo’ de vontade de conhecer é ela mesma, fica a questão: quantas vezes para nos conhecermos mais profundamente, intimamente e nos tornarmos mais completos, plenos precisamos deixar morrer algo em nós?        

Jung em o Eu e o Inconsciente afirma que “A individuação, no entanto, significa precisamente a realização melhor e mais completa das qualidades coletivas do ser humano; é a consideração adequada e não o esquecimento das peculiaridades individuais, o fator determinante de um melhor rendimento social. A individuação, portanto, só pode significar um processo de desenvolvimento psicológico que faculte a realização das qualidades individuais dadas; em outras palavras, é um processo mediante o qual um homem se torna o ser único que de fato é.”

Elsa enfrenta muitos desafios até chegar ao Ahtohallan o “rio da memória” que poderíamos entender como o inconsciente coletivo. Em Ego e Arquétipo de Edward Edinger, temos: “A descoberta de caráter mais fundamental e de maior alcance, de Jung, é a do inconsciente coletivo ou psique arquetípica. Graças às pesquisas que ele realizou, sabemos atualmente que a psique individual não é apenas um produto da experiência pessoal. Ela envolve ainda uma dimensão pré-pessoal ou transpessoal, que se manifesta em padrões e imagens universais, tais como os que se pode encontrar em todas as mitologias e religiões do mundo. Jung descobriu também que a psique arquetípica conta com um princípio estruturador ou organizador que unifica os vários conteúdos arquetípicos. Esse princípio é o arquétipo central ou arquétipo da unidade, ao qual Jung denominou Self (si-mesmo).”

Encontramos ainda em O Mito do Significado de Aniela Jaffé:
“A realidade que transcende a consciência e aparece como fundo espiritual do mundo é, em termos psicológicos, o inconsciente.” O inconsciente coletivo, introduzido por Jung em psicologia, é um “‘abismo transcendental de mistério’, no qual os arquétipos são fatores invisíveis de ordenamento. Ele é um princípio autônomo que atua ‘fora de nós’, isto é, fora do nosso mundo consciente, um ‘campo-primordial-de-espaço-tempo’”.

É no Ahtohallan que Elsa finalmente encontra a resposta para todas as suas questões: “Eu nunca me senti tão certa | Toda a minha vida eu estive em pedaços | Mas estou aqui por uma razão | Poderia ser essa a razão de eu ter nascido? | Eu sempre fui tão diferente | Regras normais não se aplicavam | Este é o dia? | Você é o caminho | Eu finalmente descubro o porquê?”

A resposta? Elsa é a resposta. Diante dos 4 elementos/espíritos da natureza – água, fogo, terra e ar – Elsa percebe-se como o quinto elemento/espírito, aquele capaz de ligar os demais e de dar sentido a vida. Talvez nesse momento, também possamos chegar à mesma experiência primordial da função criativa da consciência que Jung descreveu em suas Memórias: “Pastando, cabeças inclinadas, as hordas moviam-se para frente como rios lentos. Raramente se ouvia um som, salvo o grito melancólico de um pássaro predador. Era a quietude do eterno começo, o mundo como sempre fora, no estado de não-ser; pois até então ninguém estivera presente para saber que se tratava desse mundo... Ali, o significado cósmico da consciência tornou-se irresistivelmente claro para mim... O homem é indispensável para completar a criação; ele próprio é o segundo criador do mundo; só ele deu ao mundo sua existência objetiva, sem a qual, não sendo ouvido, não sendo visto, comendo silenciosamente, fazendo nascer, fazendo morrer, inclinando cabeças através de centenas de milhões de anos, teria prosseguido na noite mais profunda do não-ser, em direção ao seu fim desconhecido. Só a consciência humana criou a existência objetiva e o significado, e o homem encontrou seu lugar indispensável no grande processo de ser.”

No final de Frozen II, vemos que o autoconhecimento leva Elsa a perceber que ela está mais ligada ao lado de sua mãe, da floresta encantada e da magia. Por isso ela percebe que seu lugar é em Northuldtra e abdica do trono de Arendelle, que será ocupado por sua irmã Anna. Elsa deixa o reino para viver na floresta encantada.

Em Eu e o Inconsciente, Jung coloca que “quanto mais conscientes nos tornamos de nós mesmos através do autoconhecimento, atuando conscientemente, tanto mais se reduzirá a camada do inconsciente pessoal que recobre o inconsciente coletivo. Desta forma, vai emergindo uma consciência livre do mundo mesquinho, susceptível e pessoal do eu, aberta para a livre participação de um mundo mais amplo de interesses objetivos. Essa consciência ampliada não é mais aquele novelo egoísta de desejos, temores, esperanças e ambições de caráter pessoal, que sempre deve ser compensado ou corrigido por contratendências inconscientes; tornar-se-á uma função de relação com o mundo de objetos, colocando o indivíduo numa comunhão incondicional, obrigatória e indissolúvel com o mundo.”





Referência Bibliográfica:

EDINGER, Edward F. Ego e Arquétipo, SP, Cultrix, 1989

FROZEN 1 - Filme de animação produzido pela Walt Disney Animation Studios e distribuído pela Walt Disney Pictures. Novembro 2013

FROZEN 2 - O reino do gelo. Filme de animação produzido pela Walt Disney Animation Studios e distribuído pela Walt Disney Pictures. Janeiro 2020

JAFFÉ, Aniela. O Mito do Significado na Obra de C. G. Jung, SP, Cultrix, 1989

JUNG, Carl Gustav. Memórias Sonhos e Reflexões, RJ, Nova Fronteira, 1961

JUNG, Carl Gustav. O Eu e o inconsciente; tradução de Dora Ferreira da Silva. 21. ed. - Petrópolis, Vozes, 2008.

JUNG, Carl Gustav. Psicologia do Inconsciente, Obras Completas, Petrópolis, Vozes

JUNG, Carl Gustav. Memórias Sonhos e Reflexões, RJ, Nova Fronteira, 1961

SCHUBERT, René. Depressão/Melancolia. Texto publicado em 2016 (acessado em janeiro de 2020): reneschubert.blogspot.com/2016/08/depressao.html?spref=tw


Isabella Sprovieri é publicitária, atua no campo da educação e é estudante de psicologia analítica. Contato: isabella.sprovieri@gmail.com

Palestras na Zona Norte/SP

Palestras com Entrada Franca na Zona Norte de São Paulo



Todo ano há uma sequência de palestras com entrada franca realizadas na Igreja Luterana - Cantareira em uma parceria entre o Pastor Ernani Röpke e o Psicólogo René Schubert.  

Os dias escolhidos são de quarta-feira, e o início das palestras é sempre as 20 horas. As palestras tem duração em média de uma hora e meia. Seguem as temáticas e datas selecionadas para este ano:

Dia 11.03 - 20h - Psicose e Loucura - reflexão a partir dos filmes Cisne Negro e Coringa
  
Dia 20.05 - 20h - Perdas e danos - o processo de elaboração do luto

Dia 12.08 - 20h - Analise transacional - o encontro com a crianças interior

Dia 26.09 - 19h - Sábado - Relacionamento de casal - encontros e desencontros


Maiores Informações:

Ernani Röpke - Pastor - Tel. (11) 2203 - 0081
René Schubert - Psicólogo - schubert_rene@hotmail.com / (11) 2836-5022

Endereço: Lutherhaus -Paróquia Cantareira - Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil - Rua Comendador Quirino Teixeira , 212 – Tremembé

Refletindo a Perversão Sexual contra crianças



O presente artigo foi escrito em 2002 para integrar uma reportagem da Revista Educação e Família da Editora Escala. Por se tratar de um assunto delicado e mesmo assim muito atual, ele é novamente republicado aqui no blog, em sua estrutura integral, com algumas revisões quanto à ortografia e atualizações das referências bibliográficas. Boa Leitura!




Pedofilia: Um olhar a partir da psicopatologia e psicodinâmica


A partir do âmbito da psicologia clínica, tendo a psicanálise como referencial teórico, quando analisamos e levantamos hipóteses diagnósticas sobre um paciente, buscamos descobrir qual sua estrutura de personalidade e dinâmica psicológica. Temos assim as seguintes classificações de estruturas clínicas possíveis: Neurose, Psicose e Perversão. Cada qual tem características específicas, subdivisões e uma dinâmica psicológica particular.

Porém, aprofundando-se nas estruturas clínicas, percebemos que na psicose e na neurose podem ocorrer dinâmicas e atuações perversas, assim como a estrutura perversa pode conter dinâmicas e atuações psicótica e neuróticas.

Contanto se enveredarmos por este caminho, acredito que nos tomaria demais tempo e talvez nos afastasse do tema proposto. Assim proponho neste texto nos concentrarmos nas chamadas manifestações perversas.

A maioria dos autores estão de acordo ao considerar como manifestação de perversão sexual, o tipo de comportamento dirigido para a obtenção do prazer sexual com exclusão da união genital com um indivíduo do outro sexo ou, em outra na qual esta só é possível se for acompanhada de determinadas condições sine qua non, que em si mesmo, não pertencem à natureza do ato sexual, como por exemplo: a presença de um terceiro ou mais pessoas, agressão física e psicológica, atos de crueldade, utilização de objetos e/ou animais, utilização de determinada vestimenta para poder realizar o ato sexual e obter prazer.

Nas manifestações perversas, a sexualidade infantil substitui a sexualidade adulta, ou seja, o indivíduo apresenta uma sexualidade infantilizada e não uma adulta, condizente com sua idade cronológica. Tal fato nos remete a uma parada no desenvolvimento psicossexual. Por esses motivos encontram-se comportamentos impulsivos e a negligência do desejo ou limite do outro em tantos casos. Estes dados são concordantes com o que foi proferido por Baker (1984) quando este acentuou que, nas perversões, a sexualidade infantil substitui a sexualidade adulta, sendo isto o resultado da fixação ou regressão na fase do complexo de castração que, por sua vez, interfere na capacidade em desfrutar a sexualidade genital.

O que é claro nas manifestações perversas é o ato sexual ser cometido visando apenas o próprio prazer, negligenciando ou sendo indiferente ao parceiro que, acaba ocupando o lugar de objeto ou sendo parte de um cena montada para a obtenção de prazer do primeiro.

Foi baseado em estudos sobre a perversão que Freud (1927) dividiu as perversões em dois grandes grupos:
a) desvios do objeto sexual, incluindo-se neste o homossexualismo*, fetichismo, pedofilia, zoofilia, etc.
b) desvios da finalidade sexual, incluindo-se neste o voyeurismo, exibicionismo, sadismo, masoquismo, etc.
(*Atualmente o homossexualismo não é mais classificado como perversão sexual.)

Chegamos assim ao ponto que discutiremos neste artigo, a pedofilia (Do latim paedo = criança / do grego phil(o), fil(o) = amigo, o termo é traduzido geralmente como "amizade", e às vezes também como "amor". Ou seja, que ou aquele que gosta de crianças). A pedofilia é caracterizada como um desvio de objeto sexual, ou seja, o objeto sexual “saudável”, uma pessoa adulta, é deixada de lado por preferenciação à um objeto sexual infante. Tal ato é caracterizado como uma violação, tendo em vista as consequências graves físicas e psicológicas causadas sobre o objeto sexual escolhido, uma criança.




O aumento e a extensão dos casos de agressão sexual em nossa sociedade têm elevado os esforços no sentido da compreender este tipo de violência. Pesquisas têm sido realizadas nesta área, resultando em medidas de ordem preventiva e em intervenções propriamente ditas. A mídia tem sido muito mobilizada neste sentido, dado o grande (e grave) número de casos de pedofilia que tem surgido no Brasil e no mundo. Neste sentido temos o elevado número de imagens, vídeos, conteúdos sexuais e de abuso infantil sendo veiculado e espalhados pela internet. Porém, hoje também encontramos mais informação sobre o assunto, disponível na internet e na literatura. Clínicas de saúde estão abrindo espaços para debater o tema e prestar serviços de atendimento às vítimas que sofreram abusos. Serviços de saúde e segurança especializados tem ampliado a atuação para prevenir, impedir, restringir e tratar de perpetradores sexuais.

O abuso e exposição sexual de crianças é algo que não pode ser negado. Atualmente, isto tem maior visibilidade devido à diminuição da censura na circulação de informações. Como relata Telles (2002): “Podemos supor que é uma prática que sempre existiu, um aspecto da sexualidade perversa humana”.

Uma prática que sempre existiu e que encontrou na Internet o instrumental perfeito: sigilo/anonimato. Pela intensa movimentação de sites e tráfico de imagens de cunho pornográfico e exposição inadequada infantil, muitos países estão se mobilizando e reformulando suas leis em relação à essa temática, tentando de alguma forma refrear o comércio e distribuição deste tipo de material. Porém, as leis em vigor ainda são insuficientes em sua jurisprudência e muitas vezes não tem parâmetros ou ferramentas para julgar e atuar com certos casos, como por exemplo: uma apreensão de material pornográfico infantil num computador particular que não traficou as fotos, mas serviu-se delas em sites da internet. Ou num caso de denúncia de abuso sexual infantil no qual não se tem provas concretas (flagra, lesões, documentos) contra o agressor.

Judicialmente (e moralmente) produz-se o abuso sexual de menor quando se o(a) submete a exposição de estímulos sexuais inapropriados para a sua idade e desenvolvimento psicológico e/ou intelectual por parte de um adulto. As manifestações mais comuns do abuso sexual dizem respeito à ação sexual empregando a força física, ao contato sexual entre um adulto e um(a) menor através de manobras coercitivas, suborno, etc., ao contato ou interação com um(a) menor apesar da livre colaboração deste(a), mas cuja aceitação é legalmente condenada pela idade e por falta de maturidade de consciência (Ballone, 1999).

Uma das mais importantes formas que temos para combater a pedofilia é a informação e debate constante da temática. E isso pode ser feito por meio da mesma mídia utilizada pela rede de tráfico pedófilo: a internet. Informar-se sobre o assunto é o passo inicial para esclarecer dúvidas, levantar questionamentos e saber como prevenir a ocorrência de situações desta natureza.

Como já foi visto, a pedofilia é praticada por pessoas maiores de idade (adultos) que apresentam desejo sexual por crianças e adolescentes dependentes e imaturos. São atividades que violam o tabu sociocultural, desrespeitam a liberdade de escolha e desejo do outro (criança) e são contra a lei.

Tal comportamento e desejo, segundo o DSM-IV, são classificados como parafilia, já no CID-10, diz-se distúrbio da preferência sexual. Ambos, DSM-IV e CID 10 são manuais psiquiátrico-médicos que auxiliam no diagnóstico de doenças mentais e desvios comportamentais.

A organização Mundial de Saúde (OMS) define a pedofilia como a ocorrência de práticas sexuais entre indivíduos adultos com crianças que tenham menos de 13 anos de idade.

A pedofilia é praticada em geral em crianças com menos de 13 anos, sendo considerado um sujeito pedófilo, segundo critérios estabelecidos pelo DSM-IV, o indivíduo que tiver mais de dezesseis anos e for pelo menos cinco anos mais velho que a criança. Os pedófilos em geral são do sexo masculino, sendo por enquanto raras as ocorrências com agressoras femininas (há poucos relatos e tais circunstancias, por diversas razões, são mais difíceis de serem comprovadas e denunciadas). As primeiras manifestações da pedofilia geralmente ocorrem na adolescência podendo ser crônico, geralmente nos indivíduos que se sentem atraídos por meninos.

Na prática da pedofilia, os indivíduos podem apenas limitar-se a despir e observar a criança, tocar e acariciar assim como se masturbar ou realizar ato de felação, outros, no entanto, realizam a penetração vaginal, anal ou bucal. 

O psiquiatra francês Patrick Dunaigre (1999), estudioso da pedofilia na atualidade, defende a tese de que existem dois tipos de pedófilos: o de situação e o preferencial. Segundo ele, o pedófilo de situação talvez seja o mais difícil de se detectar, pois são normalmente em sua grande maioria homens adultos que cometem atos isolados e normalmente não se excitam com as crianças. Talvez nunca repitam qualquer agressão e para eles, bastam uma contemplação e toques como carícias disfarçadas. São então, no conceito de muitos, os pedófilos contemplativos, os menos perigosos, mas que não deixam de ser abusadores e podem deixar sequelas pelos seus atos. Acredita-se que esse tipo seja a maioria. Atualmente, podemos verificar isso pela grande rede de sites e tráfico de imagens de crianças nuas, em poses sensuais e pornográficas ou sendo abusadas sexualmente. Esses sites e tráfico tem intensa movimentação e crescem a cada dia mais, em todo mundo.

Mas o perigo está no pedófilo considerado preferencial, que está determinado em seu ato e visa sempre bebês e crianças na pubescência, descartando normalmente o(a)s adolescentes.

De maneira geral, os pedófilos não se limitam apenas a uma vítima ou uma só manifestação perversa. Em geral apresentam também, exibicionismo, voyeurismo, frotterismo e sadismo sexual. Podem cometer numerosos atos sexuais com crianças de diversas maneiras.

Vários estudos indicam que os pedófilos sofreram abusos sexuais, na infância, por pessoas da família ou por conhecidos. Entre outros fatores que predispõe, prevalece carência afetiva, abuso de substâncias tóxicas, deficiência na educação sexual, experiências sexuais precoces, ambiente familiar patológico. Neste sentido, Colleman (1973) distinguiu a personalidade dos pedófilos mais jovens e mais velhos. Os primeiros apresentam sentimentos de inadequação frente o sexo oposto, medo de rejeição e humilhação, sendo que muitos eram esquizoides com tendências ao consumo de álcool. Os pedófilos mais velhos apresentam transtornos psicóticos, instabilidade emocional, imaturidade, controle interno precário e conflitos homossexuais.

O pedófilo é dominado por qualidades narcisistas e agressividade sexual destrutiva que se transforma facilmente em sadismo. Callieri (1998) prefere utilizar o termo “agressor sexual” uma vez que o comportamento sexual é invasivo e não propriamente inocente. Apontou ainda que na prática sexual em geral as crianças silenciam, o que pode representar uma complexa relação entre os dois ou uma tendência da criança a vitimização.

Sándor Ferenczi (1992) foi um teórico da psicanálise que estudou a fundo esta complexa dinâmica agressor sexual x vítima. Explicou que nós adultos tendemos a compreender a linguagem da sexualidade infantil a partir de nossa linguagem sexual adulta. Desta forma conseguimos tentar ‘entender’, não aceitar, quando o agressor se justifica como tendo sido “seduzido pela criança”. Há um mal entendido na linguagem sexual adulto-criança que acaba estimulando e sendo usado como justificativa pelos agressores e abusadores em suas tentativas e investimentos sexuais.

Colaborando com todos estes dados Rossetto & Schubert (2000), por meio da aplicação de testes gráficos de personalidade, chegaram às seguintes conclusões em relação aos indivíduos pedófilos investigados: demonstravam dificuldade em estabelecer relações interpessoais, assim como dificuldade para controlar sua impulsividade. As ideias de grandeza (onipotência), muito presentes nestes indivíduos, são utilizadas como defesa contra os sentimentos de inadequação e inferioridade. Podem vir a agir de modo agressivo com condutas hostis dependendo da situação na qual se encontram. O controle interno mostrava-se extremamente precário, com reações explosivas e egocêntricas. Não renunciam ao desejo inadequado, realizam-no.

Os pedófilos apresentam medo de não corresponder ao ato sexual adulto, assim a preferência por crianças, em tese, encobriria o reconhecimento de suas falhas e fraquezas sexuais. Sentem-se sexualmente superiores quando subjugam ao seu desejo e poder um agente infantil.

No aspecto que estuda a pedofilia e suas mazelas posteriores principalmente para quem é agredido, é unanimidade entre profissionais da saúde que uma percentagem dessas vítimas serão os abusadores sexuais do futuro. Apresentarão dificuldades em integrar-se socialmente devido aos traumas sofridos na infância e somente serão capazes de uma relação sexual utilizando as mesmas formas das quais foram vítimas, como se fosse um modelo identificatório da qual a vítima não consegue escapar. Estas crianças demonstram-se posteriormente inseguras, culpadas, com sintomas de depressão, ansiedade, inadequação social que poderá permanecer por toda a vida.

Em camadas sociais menos favorecidas, o abuso sexual é uma rápida porta de entrada para a prostituição infantil, tanto feminina como masculina – e tais manifestações, ou melhor dizendo, sintomas culturais, encontram suporte e incentivo no vasto e vergonhoso turismo sexual que há em diversos países.

Serge André (1995), chocou a opinião pública, quando suas declarações foram lidas em vários jornais do mundo inteiro, dizia que “somos todos um pouco pedófilos”, segundo ele, a civilização ocidental vem há muito tempo cultuando a idolatria infantil, o autor acaba qualificando-a como um delírio coletivo. A criança e sua adoração são hoje um elemento importante no mercado internacional, visto a imensa quantidade de propagandas e produtos voltados para a infância e adolescência. Hoje não é raro vislumbrar também modelos adolescentes ou infantis desempenhando papéis sedutores em propagandas voltadas para o público adulto.

A violência sexual infantil tem sido compreendida sob diversas perspectivas: biológicas, psicológicas, socioculturais e sócio-políticas. No entanto a etiologia da agressão sexual ainda é alvo de controvérsias na medida em que a identificação de características únicas e comuns não podem ser combinadas em uma equação de previsibilidade. O ser humano é um ser complexo tanto no equilíbrio quanto no desequilíbrio, é necessário muita cautela e reflexão para prever ou predizer suas ações e motivos. Outro fato relevante é a diferença gritante que existe entre o olhar da saúde mental e o olhar do senso comum para com a pedofilia e manifestações perversas.

Novamente retomo que este é um assunto que precisa ser tornado público, discutido e problematizado. A pedofilia é uma prática que tem suas raízes na antiguidade, mas sua redescoberta atual requer uma rediscussão sobre o tema e redefinição das possibilidades e posturas que devem ser assumidas frente ao agressor e frente à vítima em nossa sociedade contemporânea.

Muitas questões importantes e simples permanecem para maior aprofundamento: 

É doença e deve ser tratada assim? 
É um desvio que pode ser tratado? 
Qual a melhor maneira de se prevenir contra atentados deste tipo se você tem crianças? 
A quem recorrer se um ato ou fato desta natureza é presenciado ou contado? 
Como reagir frente ao agressor/perpetrador? 
Como reagir frente à vitima, para que essa não sofra ainda mais?
Como trabalhar, tratar tal abuso/trauma com a vitima buscando diminuir o impacto de sua dor e sofrimento?
Quais teorias e métodos estão disponíveis para se olhar e atuar sobre a dinâmica VitimaXPerpetrador?
Quais tratamentos e possibilidades estão disponíveis para lidar com o agressor/perpetrador?
Como tratar deste assunto em escolas, instituições sociais, internatos e acampamentos infantis? 
Como discutir a pedofilia sem cair na banalidade ou senso comum?
Como trabalhar este tema com pais e educadores para que atuem de forma preventiva e esclarecedora para todo(a)s envolvido(a)s?
Como olhar para esta questão não apenas de uma perspectiva isolada, mas também discuti-la em seus aspectos histórico-culturais e amplitude sistêmica?

Acredito que o presente artigo serviu para trazer o tema à tona e pincelar alguns pontos fundamentais para iniciar um debate e aprofundamento à temática: pedofilia. Algumas questões já podem ser respondidas e dialetizadas, mas vejo que o tema é vasto e complexo tendo de ser estudado com emergência, mas com muito cuidado e cautela.



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